sábado, 9 de julho de 2011

Sexo e assimetria

As aranhas são dos animais mais perfeitamente simétricos que existem. Normalmente, criaturas com uma aparência exterior simétrica são  muito menos organizadas no seu interior. Basta pensar, por exemplo, no ser humano, com os seus intestinos desorganizados, o coração no lado esquerdo e o fígado no lado direito. Isso não acontece com a aranha. De facto, a sua metade esquerda é considerada uma imagem de espelho da direita. Por isso, a surpresa foi grande quando foi descoberta a aranha M. mariguitarensis que apresenta um dos seus pedipalpos (que são o par de órgãos sexuais das aranhas macho), mais concretamente o da direita, com um tamanho que é de cerca do dobro do da direita. Por muitos anos pensava-se que este caso era único na Natureza.
Assimetria estranha…
Apesar da assimetria genital ser extremamente rara nas aranhas, quando Bernhard Huber, do Musei Koenig, em Bohn na Alemanha, começou a estudar o assunto, cedo se tornou claro que o resto do mundo natural se encontra repleto com pénis encurvados e vulvas assimétricas. Uma vez que a simetria é considerada bela, porque é que existe esta assimetria a nível sexual em muitas espécies?
A assimetria sexual é encontrada, por exemplo, nos insectos, em baratas, besouros ou borboletas, por exemplo. Entre os vertebrados, há 4 espécies de peixes que as apresentam. Os patos macho, por exemplo, possuem um pénis helicoidal e as fêmeas uma vagina helicoidal mas com enrolamento oposto (possivelmente para dificultar a vida aos machos que tentem penetrá-la contra a sua vontade). Finalmente, nos mamíferos existem também muitas espécies com assimetria nos órgãos genitais, tais como o esquilo gigante, as lamas e os camelos. Mas não é só o Reino Animal que apresenta esta característica. De facto, existem também várias espécies de plantas que a apresentam.
Se de uma maneira geral os indivíduos simétricos são preferidos como parceiros(as), torna-se difícil perceber como é que evoluiu a assimetria observada. Quais são as razões por detrás deste facto?
Uma razão aparenta estar simplesmente relacionada com o processo de interacção entre os órgãos genitais. Por exemplo, no caso da aranha M. mariguitarensis, verificou-se que a fêmea apresenta muito pouco espaço entre o útero e o revestimento do corpo, pelo que o seu sistema reprodutor é assimétrico, apresentando um enrolamento para a direita. Por isso é que no caso dos machos o pedipalpo da direita se encontra mais desenvolvido, permitindo colocar mais esperma no lado onde existe uma maior probabilidade de fertilizar um ovo.
Adicionalmente, outras teorias para outras espécies têm sido sugeridas, tais como provocar uma maior estimulação da fêmea, de forma a garantir uma cópula mais prolongada, e, consequentemente utilizando mais esperma. Esta situação parece aplicar-se, por exemplo, aos porcos e a algumas espécies de moscas.
Outra ideia sugere que nalguns casos pode ser vantajoso para facilitar a posição de cópula que ocorre em determinadas espécies, tais como algumas moscas e besouros.
Até as flores o fazem…
No caso das flores, as explicações anteriores não se aplicam. No entanto, pensa-se que a assimetria encontrada é uma consequência do facto de existir um lado preferencial para alguns insectos polinizadores espalharem o pólen. No entanto, se tal fosse assim tão vantajoso, seria de esperar que mais plantas exibissem a tal assimetria. São necessários mais estudos para perceber a relevância desta assimetria no Reino Vegetal…
Curiosidade histórica…
Esta ideia da assimetria sexual era um tema abordado também na Grécia Antiga. Chris McManus, da Universidade de Londres, estudou a assimetria no escroto de 107 esculturas antigas. De uma maneira geral, observou que os artistas tinham tendência a colocar o testículo esquerdo maior e mais em baixo do que o direito. Curiosamente, nesse tempo acreditava-se que o testículo direito produzia rapazes e o esquerdo raparigas.

Fonte: New Scientist

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Defesa natural anti-Alzheimer

Não é novidade que a chaperone HspB1 se encontra presente nas placas amilóides encontradas nos pacientes com doença de Alzheimer, mas a sua função permanecia um mistério.
“Descobrimos que a HspB1 aparece como um mecanismo protetor que tenta ajudar a eliminar os agregados tóxicos de beta-amilóide que aparecem na doença de Alzheimer”, afirmou o Dr. Anil G. Cashikar, investigador na Universidade da Georgia. Os resultados deste estudo foram publicados na revista Molecular and Cellular Biology.
Pensa-se que os péptidos de beta-amilóide iniciam uma cascata de eventos que leva a danos e eventualmente morte das células do cérebro. De facto, a quantificação dos níveis desse péptido no fluído espinal é utilizada como uma ferramenta de diagnóstico da doença. As chaperones são conhecidas pela sua propensão para responder a doenças relacionadas com o mau enrolamento de proteínas, que é o que se passa com a beta-amilóide.
Tendo consciência que ainda permanece muito trabalho para fazer, o cientista acredita que esta descoberta poderá abrir novas perspectivas para potenciais tratamentos da doença de Alzheimer. “A HspB1 está presente nas placas porque a sua função é proteger as células. Se conseguirmos elevar os níveis desta chaperone, provavelmente conseguiremos lidar com a doença melhor.”
O passo seguinte será explorar melhor este sistema natural, de forma a desenvolver uma versão mais pequena da chaperone, que possa ser administrada na corrente sanguínea, de forma a ajudar a remover o excesso de beta-amilóide do cérebro. Simultaneamente, também estão a ser estudadas formas de aumentar os níveis de produção da chaperone no cérebro.

Fonte: Science Daily

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A última refeição do Homem do Gelo

O Homem do Gelo, descoberto nos Alpes Italianos em 1991, tem sido uma mina de ouro de informações acerca da vida no período Neolítico, mesmo após 5200 anos da sua morte! Estudos prévios acerca da última refeição do Homem do Gelo, baseados em material fecal recolhido do seu intestino, revelaram que o seu jantar teria sido carne de rena e, possivelmente, cereais, cerca de 4 horas antes da sua morte.
No entanto, uma equipa de investigação liderada pelo microbiólogo Frank Maixner, do Institute fo Mummies and the Iceman de Bolzano, Itália, reexaminou imagens de tomografia computorizada tirada em 2005 e descobriu, pela primeira, vez, o estômago do Homem do Gelo. O órgão ter-se-à movido para cima, para uma posição não usual, e parecia cheio. Quando retiraram uma amostra do conteúdo gástrico e sequenciaram o DNA das fibras animais que encontraram, descobriram que, cerca de 30-120 minutos antes da sua morte, o Homem do Gelo ingeriu carne de íbex-dos-Alpes.
Estas novas descobertas são muito importantes, afirmou Niels Lynnerup, um especialista em medicina forense da Universidade de Copenhaga. “Estamos a aproximar-nos dos últimos minutos de vida do Homem do Gelo”.
Num outro trabalho, o dentista Roger Seilei e o anatomista Frank Ruhli, da Universidade de Zurique, examinaram a saúde oral do Homem do Gelo, que provavelmente morreu com cerca de 35-40 anos. Nesse estudo, verificaram que o Homem do Gelo apresentava várias cavidades dentárias, o que sugere que o mesmo tinha uma dieta abundante em alimentos ricos em hidratos de carbono, tais como pão e cereais, e revelaram que apresentava uma “elevada dose bacteriana nos dentes”.

Fonte: Science/AAAS

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Os órix-da-arábia já não se encontram em risco de extinção

A última actualização da Lista Vermelha da IUCN sobre espécies ameaçadas inclui uma informação muito positiva: O órix-da-arábia (Oryx leucoryx) deixou de ser considerado uma espécie “ameaçada de extinção” passando para “espécie vulnerável”. Tendo em conta que a espécie foi extinta do estado selvagem há apenas algumas décadas, esta informação é muito gratificante. O último órix-da-arábia selvagem morreu em 1972. Desde essa época têm sido efectuados esforços intensos de conservação e de reintrodução da espécie, fazendo com que actualmente a sua população selvagem supere já os 1.000 animais.
Esta é a primeira vez que uma espécie, após ser considerada extinta, foi passada da categoria em perigo (onde se encontrava desde 1986) para uma espécie vulnerável (sem muitos riscos).
Os órixs-da-arábia foram a espécie mais caçada no Médio Oriente nos séculos 19 e 20. Os únicos animais que permaneceram vivos estavam em jardins zoológicos. Após o estabelecimento de criações em cativeiro, as reintroduções no seu habitat selvagem começaram em 1982. A espécie foi reintroduzida na Arábia Saudita, Israel e Emirados Árabes.
"Ter conseguido recuperar o órix-da-arábia de volta da sua quase extinção total é um grande feito e uma verdadeira história de sucesso de conservação da Natureza. Esperamos que este facto seja repetido muitas vezes com outras espécies ameaçadas", afirmou Razan Khalifa Al Mubarak, director geral da Agência de Meio Ambiente de Abu Dhabi. "É um exemplo clássico de como os dados da Lista Vermelha da IUCN podem alimentar acções de conservação de espécies e produzir resultados concretos e bem sucedidos."
"É extremamente importante que continuemos a avançar nas pesquisas de espécies pouco conhecidas, pois sem dados suficientes, não podemos determinar o risco de extinção e, portanto, não podemos desenvolver ou implementar acções efectivas de conservação que possam impedir que a espécie desapareça por completo", alerta Jane Smart, directora do Programa Global de Espécies da IUCN.

Fonte: Scientific American

terça-feira, 5 de julho de 2011

Leveduras vermelhas para baixar os níveis de colesterol?

Há mais de uma década, um tribunal federal decidiu que os produtos derivados de leveduras vermelhas do arroz não eram drogas, apesar do facto desses produtos conterem químicos naturais funcionalmente indistinguíveis da lovastatina, uma droga prescrita para diminuir os níveis de colesterol. E assim surgiu toda uma indústria de suplemento dietéticos. Em 2008, Os Americanos estavam a gastar cerca de 20 milhões de dólares por ano em produtos derivados dessa levedura, muitos deles devido a recomendações médicas.
No entanto, um estudo recente alerta para o facto de que nem todos os produtos derivados das leveduras vermelhas do arroz contêm concentrações farmacologicamente activas dos produtos fúngicos.
As primeiras investigações acerca da levedura – amplamente utilizada na medicina tradicional Chinesa – foram efectuadas pela empresa Pharmanex of Simi Valley, da Calidórnia, e visaram um produto que eles designaram de Cholestin. Devido ao nome científico da levedura vermelha, Monascus purpureus, os constituintes desse produto foram designados por monacolinas. De entre todas, a monacolina K, que é equivalente à lovastatina, foi a que desperou mais interesse.
Diversos estudos foram publicados, indicando que o Cholestin diminuía os níveis de colesterol, conforme publicitado. No entanto, isso não descansou a FDA. De facto, uma vez que esse tipo de produtos continha uma “lovastatina natural”, deveriam ser considerados fármacos e, consequentemente, careciam de regulamentação. De forma a contornar o problema, “os produtores de substâncias derivadas da levedura vermelha normalmente não apresente os níveis de lovastatina ou outras monacolinas nos seus produtos, e não existe nenhuma padronização desses níveis entre os diferentes produtores” refere o cardiologias Ram Gordon, da Universidade de Pensilvânia.
Nesse contexto, a equipa de investigação de Ram Gordon decidiu investigar a concentração de moacolinas em diversos produtos derivados da levedura vermelha do arroz. Os resultados obtidos foram publicados no jornal Archives of Internal Medicine.
Observaram que um produto continha menos de 0,3 mg de monacolinas totais, enquanto outro apresentava mais de 11 mg por cápsula. Especificamente, em relação à lovastatina, uma marca de cápsulas possuía 0,1 mg por dose, enquanto outra tinha um valor mais de 100 vezes superior.
Para piorar as coisas, os investigadores detectaram a presença de citrinina, uma toxina fúngica que afecta os rins, em cerca de um terço dos produtos analisados!
Em conclusão, na sua maioria é difícil padronizar os remédios naturais, uma vez que são preparados directamente a partir de plantas e/ou fungos. Como tal, a proporção dos seus constituintes varia de acordo com a época do ano, os nutrientes, as condições de cultura, a presença de parasitas, a presença de pesticidas, entre outros.

Fonte: Science News