quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Risco de extinção dos linces ibéricos – a culpa é dos coelhos

A chegada em 1988 da doença hemorrágica viral (em inglês, viral hemorrhagic disease ou VHD) à Espanha devastou a população de coelhos-europeus (Oryctolagus cuniculus) no país e, no processo, desencadeou o possível desaparecimento da espécie local mais adaptada à caça desse coelho, o lince-ibérico (Lynx pardinus).
Ese felino encontra-se agora num ponto crítico de ameaça de extinção, com apenas 100-200 animais ainda no ambiente natural. Isso faz do lince-ibérico a espécie felina em mais grave risco de desaparecimento. Em 1960 existiam cerca de 4 mil animais...
Uma das poucas áreas onde o lince-ibérico ainda reside é o Parque Nacional Doñana, na Espanha. De acordo com uma pesquisa publicada no Basic and Applied Ecology, o lince era o único predador no parque incapaz de se adaptar a comer outras presas quando a população de coelhos entrou em colapso.
“Todos os carnívoros reduziram o seu consumo de coelhos após a chegada da VHD, embora essa redução variasse de espécie para espécie”, comentou em declaração oficial Pablo Ferreras, um dos autores mais importantes do tema e investigador no Instituto de Pesquisa em Recursos Cinegéticos em Ciudad Real, Espanha.
De acordo com a pesquisa, predadores como o texugo (Meles meles), a raposa (Vulpes vulpes) e o mangusto-egípcio (Herpestes ichneumon) voltaram a sua atenção para outros pequenos mamíferos, aves e carne em decomposição, quando os coelhos se tornaram menos numerosos. Os texugos, por exemplo, reduziram a quantidade de coelhos da sua dieta de 71,8% a 26,2%. Porém, o lince-ibérico não conseguiu fazer essa mudança; ele ainda depende dos coelhos para cerca de 75% da sua dieta.
Por que é que o lince se mostrou incapaz de se adaptar? Ferreras afirmou que o lince evoluiu na Península Ibérica durante períodos glaciais da época do Pleistoceno, ao mesmo tempo que o coelho europeu: “O tamanho do corpo do lince, menor do que o de seu ancestral evolucionário, resultou da adaptação para caçar coelhos, que constituíam a presa principal do seu ancestral e o comportamento à caça desse animal – na base da emboscada e da espera – é uma adaptação à necessidade de caçar coelhos em arbustos volumosos do Mediterrâneo, onde havia antes uma alta densidade de coelhos.”
De acordo com Ferreras, o lince usa terrenos com arbustos do Mediterrâneo mais do que qualquer outro habitat e depende da presença tanto de coelhos quanto dessa vegetação para viver. “Ele não consegue sobreviver em áreas com alta densidade de coelhos mas sem arbustos mediterrâneos”, explica o pesquisador. Boa parte do antigo habitat do lince, que era cheio de arbustos, perdeu-se por causa da intervenção humana.
A diminuição do fornecimento da sua maior fonte de presas não só afectou a capacidade do lince de se alimentar, como alterou a estrutura social da espécie. Ferreras e a sua equipa descobriram que a fêmea do lince aumentou o tamanho do seu território, ao passo que os linces jovens não se dispersaram das suas áreas de ninhada da maneira como o faziam antes. Os investigadores fazem um apelo para se controlar a população de coelhos por meio de reposição de ninhadas ou melhorias do habitat a fim de salvar o lince-ibérico da extinção.
Ferreras esclarece que a reposição da população de coelhos no parque não criaria um problema ecológico, como no célebre caso da introdução de coelhos na Austrália, porque a espécie é nativa da região e há muitos outros predadores que ajudariam a controlar o seu crescimento numérico. A Península Ibérica é “uma ampla comunidade de 30 a 40 predadores naturais, de répteis a raptores e carnívoros”, informa Ferreras. “Os poucos lugares onde os coelhos são encarados (de maneira subjectiva, provavelmente) como uma peste na Península Ibérica são na maioria das áreas agrícolas, nas quais os predadores são muito raros. Não é esse o caso das paisagens onde há como recuperar o lince e nas quais propomos aumentar o número de coelhos.”

Fonte: Scientific American

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sistema de espelho dá uma ajuda

Quando uma mulher que nasceu sem membros observa alguém a costurar, dá-se uma activação de regiões copycat do seu cérebro, mesmo que ela não possa sequer segurar uma agulha. Regiões adicionais do cérebro também servem de suporte, demonstrando como o cérebro é flexível quando se trata de observar e entender as acções dos outros.
Os cientistas conhecem há mais de uma década o sistema de espelho, uma rede de regiões cerebrais normalmente activadas quando se assiste e executa uma acção. No entanto, a forma como o cérebro intui de forma harmoniosa e rápida o que as outras pessoas estão a fazer, principalmente quando a acção é algo que o observador não pode fazer, tem permanecido por esclarecer, afirma Lisa Aziz-Zadeh, co-autora de um estudo da Universidade de Southern California em Los Angeles.
No estudo, uma mulher saudável de meia-idade, que nasceu sem braços e pernas foi sujeita a avaliações cerebrais enquanto assistia a filmes de pessoas a realizar acções como segurar e comer uma fatia de maçã, cosendo com uma agulha e batendo com um dedo. Acções que a mulher era capaz de realizar levaram a uma activação do sistema de espelho, inclusive partes do cérebro que controlam o movimento. As áreas de espelho foram activadas mesmo para tarefas que a mulher realiza de uma forma diferente, como pegar em alimentos usando a boca ao invés das mãos. (A participante tinha próteses desde a adolescência, mas não as usou nos últimos 40 anos...)
Quando a mulher observou acções que eram impossíveis para ela, como o uso de tesoura, o sistema de espelho foi na mesma activado, mas regiões adicionais do cérebro foram recrutadas para ajudar. Estas regiões extra não são normalmente necessárias quando as pessoas assistem a uma tarefa que são capazes de executar, escrevem os investigadores na revista Cerebral Cortex. Pensa-se que estas regiões estão envolvidas num processo designado de "mentalização", em que uma pessoa tenta entender o que outra a pessoa está a pensar.
"O interessante é que mesmo quando ela não pode fazer as tarefas, quando é impossível, ela ainda recruta o seu sistema de espelho, mas adicionalmente recruta essas regiões de mentalização", diz Aziz-Zadeh.
Por sugerir que o sistema de mentalização entra em acção quando esta mulher não pode copiar uma determinada acção, o novo estudo ajuda a esclarecer como esses dois sistemas cerebrais trabalham em conjunto, diz o neurocientista cognitivo Marcel Brass da Ghent University, na Bélgica.

Fonte: Science News

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ferimentos na cabeça podem aumentar a demência

Lesões cerebrais sofridas no campo de batalha e no desporto poderão aumentar o risco de demência mais tarde na vida, de acordo com dois novos estudos. Num terceiro estudo, também apresentado numa conferência internacional sobre Alzheimer, em Paris, os investigadores revelaram evidências de que cair na vida diária pode ser um sinal de alerta precoce do aparecimento da doença de Alzheimer.
Veteranos de guerra idosos que sofreram lesões cerebrais traumáticas enfrentam um risco maior (cerca do dobro) de desenvolver demência, de acordo com um estudo conduzido por Kristine Yaffe, chefe do Programa de Transtornos da Memória no centro médico Veterans San Francisco Association.
Na revisão dos prontuários de 281.540 veteranos dos EUA com 55 anos ou mais velhos, descobriram que o risco de demência foi de 15,3% naqueles que tiveram lesões cerebrais traumáticas (TBI), em comparação com 6,8% para ex-soldados que não tiveram essas lesões.
"Esta questão é importante, porque situações de TBI são muito comuns", diz Yaffe. "Cerca de 1,7 milhões de pessoas experimentam uma TBI cada ano nos Estados Unidos, principalmente devido a quedas e acidentes de carro."
Tais lesões também são conhecidos como a "ferida assinatura" dos conflitos no Afeganistão e no Iraque, responsável por 22% das mortes globais e 59% das lesões relacionadas com explosões.
Conexões danificadasA pesquisa sugere que danos e morte de axónios, que são extensões celulares que formam longas conexões entre células nervosas no cérebro, pode ser o culpado para o maior risco de demência.
O inchaço dos axónios traumatizados, acompanha a acumulação de proteínas chamadas beta-amilóide, uma característica da doença de Alzheimer.
Placas amilóides semelhantes às encontradas nos cérebros de pessoas com Alzheimer estão presentes em até 30% dos pacientes com TBI que não sobrevivem aos ferimentos sofridos, independentemente da idade.
Num segundo estudo, os cientistas liderados por Christopher Randolph da Loyola University Medical Center, em Chicago, comparou a probabilidade de declínio de funções cognitivas básicas entre jogadores de futebol americano retirados e em adultos mais velhos, que não tinham praticado desporto profissional.
Os repetidos choques de cabeça típicos do futebol americano podem, apesar de equipamento de protecção, aumentar a probabilidade de danos a longo prazo no cérebro. De mais de 500 ex-jogadores de futebol, com idade média de 61 anos, que responderam a um inquérito de saúde em 2008, pouco mais de 35% apresentaram demência possível, quase o triplo da taxa da doença de Alzheimer entre os americanos acima de 65 anos.
Os pesquisadores analisaram esses dados para identificar os jogadores com transtorno cognitivo leve (MCI), normalmente um precursor de demência ou Alzheimer.
O estudo comparou resultados de testes neurológicos e psicológicos deste grupo com outros dois grupos, nenhum dos quais tinha praticado desporto profissional: adultos demograficamente semelhantes, que não mostravam declínio cognitivo, e adultos diagnosticados com MCI.
O ex-atletas estavam claramente prejudicados em relação aos adultos normais, e um pouco menos prejudicados que o grupo não-atleta diagnosticado com MCI, mas eram consideravelmente mais jovens.
"Parece que pode haver uma taxa muito elevada de dano cognitivo nestes jogadores de futebol que se retiraram em comparação com a população em geral", diz Randolph, apontando para "traumatismos cranianos repetitivos" como o provável culpado.

As quedas podem ser um indicador precoceNo último estudo, a equipa da investigadora Susan Stark, da Universiade de Washington, rastreou 125 adultos idosos ao longo de oito meses, pedindo-lhes para registar qualquer queda que sofressem no dia-a-dia.
Os adultos com os chamados sintomas pré-clínicos de Alzheimer, sinais mensuráveis em análises ao cérebro mesmo na ausência de perda de memória, apresentaram quase três vezes mais probabilidade de queda numa escala usada para medir a progressão de Alzheimer.
"Este estudo sugere que altas taxas de quedas podem ocorrer muito cedo no processo da doença", diz Stark. Sintomas típicos da doença de Alzheimer, como perda de memória. permanecem criticamente importantes, diz Maria Carrillo, directora da Associação de Alzheimer dos Estados Unidos, comentando o estudo. "Mas estes resultados também ilustram a importância do entendimento de que, em algumas pessoas, alterações na marcha e equilíbrio podem aparecer antes do prejuízo cognitivo", diz ela.

Fonte: ABC Science

domingo, 7 de agosto de 2011

Perda de grandes predadores causa uma perturbação generalizada dos ecossistemas

O declínio de grandes predadores no topo da cadeia alimentar tem alterado os ecossistemas em todo o planeta. A descoberta é relatada por uma equipa de cientistas que publicaram o trabalho na revista Science.
O estudo analisou os resultados da investigação a partir de uma ampla gama de ecossistemas de água doce, terrestres e marinhos e concluiu que "a perda de consumidores ápice é, sem dúvida, a influência mais abrangente da humanidade sobre o mundo natural."
De acordo com o autor James Estes, um ecologista marinho e biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, os animais de grande porte eram omnipresentes em todo o globo. Eles moldaram a estrutura e dinâmica dos ecossistemas.
O seu declínio, em grande parte causado pelos seres humanos através da caça e fragmentação do habitat, tem consequências de longo alcance e muitas vezes surpreendentes, incluindo mudanças na vegetação, frequência de fogos, doenças infecciosas, espécies invasoras, qualidade da água e ciclos de nutrientes.
A diminuição dos consumidores ápice é mais pronunciada entre os grandes predadores, como os lobos em terra, os tubarões nos oceanos e grandes peixes em ecossistemas de água doce. Há também declínios dramáticos nas populações de muitos herbívoros de grande porte, como elefantes e búfalos.
A perda de consumidores ápice de um ecossistema desencadeia um fenómeno ecológico conhecido como "cascata trófica", uma cadeia de efeitos que se deslocam para baixo através dos níveis inferiores da cadeia alimentar.
A pesquisa, financiada em parte pelo National Science Foundation (NSF), destaca os “efeitos imprevesíveis das cascatas tróficas em sistemas da Terra, incluindo processos de longo alcance, tais como os ciclos biogeoquímicos”, afirmou David Garrison, director do Programa de Oceanografia Biológica da NSF.
"A eliminação de predadores como tubarões, lontras do mar, e lobos tem consequências", disse Garrison, "não só para estas espécies, mas para todos nós."
"Os efeitos top-down dos consumidores ápice num ecossistema são fundamentalmente importantes, mas é um fenómeno complicado," afirmou. "Eles têm diversos e poderosos efeitos na forma como funcionam os ecossistemas, e a perda desses animais de grande porte tem grandes implicações globais."
Estes e co-autores citam uma vasta gama de exemplos na sua revisão, incluindo:
• A eliminação de lobos no Yellowstone National Park levou a uma maior procura de aspen e salgueiros pelos alces; a restauração dos níveis de lobos permitiu que a vegetação recuperasse.
• Mudanças drásticas nos ecossistemas costeiros acompanharam o colapso e recuperação de populações de lontras do mar. As lontras do mar mantêm as florestas de kelp através do controlo das populações costeiras de ouriços-do-mar.
• A dizimação dos tubarões num ecossistema estuarino causou um surto de raias nariz-de-vaca e o colapso das populações de moluscos.
Apesar desses e de outros exemplos bem conhecidos, a extensão de tais interacções nos ecossistemas não tem sido devidamente considerada, afirmam os cientistas. "Tem havido uma tendência a vê-lo como uma ideia idiossincrática e específica para determinadas espécies e ecossistemas".
Uma razão para isso é que o efeito top-down de predadores é difícil de observar e estudar.
"Essas interações são invisíveis a menos que haja alguma perturbação que as revele," disse Estes. "Com estes animais de grande porte, é impossível fazer as experiências que seriam necessárias para mostrar os seus efeitos, assim, a evidência tem sido adquirida como resultado de mudanças naturais e de longo prazo nos registos."
Estes estuda os ecossistemas costeiros no Pacífico Norte há várias décadas, realizando pesquisas sobre o papel ecológico das lontras marinhas e baleias assassinas. Em 2008, ele e o co-autor John Terborgh, da Universidade Duke organizaram uma conferência sobre cascatas tróficas, que reuniu cientistas que estudam uma ampla variedade de ecossistemas.
O reconhecimento de que efeitos top-down semelhantes ocorrem em muitos sistemas diferentes foi um catalisador para o estudo actual.
As conclusões do estudo têm implicações profundas para a conservação da natureza, "na medida em que a conservação tem por objectivo restaurar os ecossistemas funcionais, sendo que o restabelecimento de animais de grande porte e os seus efeitos ecológicos são fundamentais para isso," Estes disse.
"Isto tem implicações enormes para a escala em que a conservação pode ser feita. Não é possível restaurar os consumidores de grande porte numa área pequena de terra. Estes animais andam em grandes áreas, por isso vai ser necessária uma abordagem em grande escala".

Fonte: E! Science News

sábado, 6 de agosto de 2011

A solução para cordas vocais enrijecidas

Uma injecção de gel pode ajudar uma cantora como Julie Andrews a reconquistar a sua bonita voz. O material restaura a suavidade de cordas vocais que enrijeceram devido a cicatrizes.
Os cantores não são os únicos que podem sofrer danos nas cordas vocais. Cerca de 6 % da população dos EUA tem um distúrbio vocal, principalmente devido a rigidez nas cordas vocais. Fumar, cantar ou determinadas lesões podem provocar cicatrizes, e a idade endurece as nossas cordas vocais, até mesmo das pessoas mais calmas e caladas. Consequentemente, cordas rígidas não podem vibrar de forma tão eficaz, de forma a criar os tons diferentes das nossas vozes.
Os médicos são incapazes de reverter adequadamente os danos no tecido cicatricial, diz Steven Zeitels, um cirurgião de laringe no Massachusetts General Hospital em Boston, cujos pacientes têm incluído Andrews – que nunca conseguiu recuperar a sua famosa voz após uma operação na garganta, em 1997 – e o vocalista dos Aerosmith, Steven Tyler.
Uma equipa liderada por Zeitels e Robert Langer, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts tem investigado como restaurar a capacidade vibratória das cordas vocais, independentemente da presença de tecido cicatricial difícil.

Imitação melíflua

Os investigadores criaram um gel de polietileno glicol modificado - um componente comum em laxantes, que também é usado em tubos de revestimento de alimentação em hospitais - que imita a flexibilidade natural do tecido das cordas vocais.
A equipa injetou o gel nas cordas vocais danificadas de cães, em cima de tecido cicatricial existente e por baixo da membrana externa das cordas vocais. Gravaram imagens de vídeo de alta velocidade das cordas enquanto um fluxo de ar as atravessava, e analisar as imagens para avaliar como é que as cordas vocais vibravam. A análise confirmou que o material injectado restaurou as vibrações por três meses -, tendo sido depois absorvido pelo organismo.
Zeitels e Langer estão a tentar melhor o material para que dure mais tempo. Esperam começar para o ano com um ensaio clínico com cerca de 10 pacientes.

Fonte: New Scientist