quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

‘Pseudopartículas’ virais podem ser usadas em vacina contra hepatite C

A procura por uma vacina eficiente contra a hepatite C tem sido árdua, mas agora uma equipa de pesquisadores franceses obteve resultados significativos ao produzir, pela primeira vez, anticorpos de amplo espectro em animais. O artigo intitulado “A Prime-Boost Strategy Using Virus-Like Particles Pseudotyped for HCV Proteins Triggers Broadly Neutralizing Antibodies in Macaques“, publicado no jornal Medicine Translational Science, relata como as novas pistas encontradas poderiam ser usadas para desenvolver uma vacina contra a doença e também outras infecções, como o vírus HIV e a dengue.
Até ao momento, tratamentos antivirais contra a hepatite C são muito caros e, portanto, pouco acessíveis para a maioria das pessoas afetadas cronicamente pela doença. Uma vacina eficaz de amplo espectro poderia prevenir a infeção e a sua disseminação.
A pesquisa realizada por uma equipa de pesquisadores franceses, coordenada pelo Laboratório de Imunologia, Imunopatologia e Imunoterapia David Klatzmann (CNRS / UPMC / Inserm), França, desenvolveu uma tecnologia com base na utilização de estruturas artificiais de partículas virais, ou “pseudopartículas” virais. Estas estruturas não se multiplicam por serem desprovidas de material genético do vírus.
As pseudopartículas virais foram construídas a partir de diferentes fragmentos de dois vírus: um retrovírus de rato recoberto com proteínas do vírus da hepatite C (VHC). Depois de injetadas em ratos e macacos, as reações foram observadas pelos cientistas. Os organismos dos animais produziram anticorpos de amplo espectro, capazes de imunização contra diferentes tipos de VHC.

Fonte: Ciência Diária

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Nós somos o que comemos

por Anne-Marie C. Hodge

"Nós somos o que comemos." O velho ditado pesa há décadas na mente dos consumidores que se preocupam com a escolha responsável de alimentos. E se for literalmente verdade? E se os nutrientes dos nossos alimentos realmente fizerem um caminho para os centros mais íntimos de controlo das nossas células, assumindo o controlo da expressão génica fundamental? Segundo um estudo recente de transferência de microRNA planta-animal, liderado por Chen-Yu Zhang da Nanjing University, na China, isso é o que acontece.
Os microRNAs são sequências curtas de nucleótidos – “blocos de construção” do material genético – e, apesar de não codificarem proteínas, impedem genes específicos de dar origem às proteínas que codificam. Durante o estudo, amostras de sangue de 21 voluntários foram testadas para verificar a presença de microRNAs de plantas cultivadas, tais como arroz, trigo, batatas e repolho. Os resultados, publicados na revista Cell Research, mostraram que a corrente sanguínea dos participantes continha cerca de 30 microRNAs de diferentes plantas comumente ingeridas. Além disso, parece que os alimentos também podem alterar a função celular: um microRNA específico de arroz ligou-se a um dos receptores que controlam a remoção de LDL (o colesterol “mau”) da corrente sanguínea e inibiu-o.
Tal como as vitaminas e minerais, o microRNA pode representar um tipo ainda não reconhecido de molécula funcional, obtida por meio dos alimentos. A revelação de que o microRNA de plantas desempenha um papel no controlo da fisiologia humana, destaca o facto de que os nossos corpos são ecossistemas altamente integrados. Zhang diz que as descobertas podem também iluminar a nossa compreensão da coevolução, um processo em que mudanças genéticas numa espécie desencadeiam alterações noutra. Por exemplo, a nossa capacidade de digerir a lactose do leite após a infância surgiu depois de domesticarmos o gado. Poderiam as plantas que cultivamos alterar-nos também? As pesquisas de Zhang são outro aviso de que nada na natureza existe isoladamente…

Fonte: Scientific American

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Baterias do mar profundo vêm à luz

Cientistas descobriram um tipo incomum de bateria no fundo do Oceano Pacífico: uma bateria viva, alimentada por micróbios que vivem perto de fontes hidrotermais.
Como eles se alimentam dos produtos químicos nocivos que borbulham do fundo do mar, estes organismos criam correntes elétricas que fluem através das paredes das estruturas semelhantes a chaminés que habitam.
"A quantidade de energia produzida por estes micróbios é bastante modesta", disse o biólogo e engenheiro Peter Girguis de Harvard, que apresentou os seus resultados na reunião da União Geofísica Americana. "Mas seria tecnicamente possível produzir energia para sempre."
Girguis espera aproveitar esse poder para colocar sensores no fundo do mar. Ele e os seus colegas mediram a corrente através da implantação de um elétrodo perto de uma chaminé subaquática localizada a 2.200 metros abaixo da superfície no cume de Juan Fuca ao largo da costa noroeste do Pacífico.
Para entender melhor a fonte atual, os pesquisadores construíram uma chaminé artificial em laboratório. Um tubo que imitava o interior da chaminé estava cheio de sulfeto de hidrogénio dissolvido, que cheira a ovos podres, mas é usado para alimentar micróbios. Um segundo tubo, fora da chaminé, continha apenas água do mar.
Os cientistas cresceram um filme de microorganismos num pedaço de pirite, um mineral metálico encontrado em chaminés naturais, que ligava os dois tubos. A corrente produzida pelos microorganismos na pirite aumentou quando eles receberam mais alimentos, sugerindo que esta corrente é a forma como os microorganismos estabelecem contacto com o oxigénio na água do mar fora da chaminé. A pirite parece captar os eletrões criados quando os microorganismos degradam o sulfeto de hidrogénio, sendo depois transferidos para moléculas de oxigénio, originando água.
Alguns microorganismos podem estabelecer contacto directamente com o oxigénio na água que se infiltra através dos poros das chaminés naturais, sugere John Delaney, um geólogo marinho da Universidade de Washington, em Seattle.
Girguis concorda que é possível, mas diz que não descarta a sua prova "decisiva" que as correntes elétricas ajudam as criaturas a “respirar”.
"Isso muda a maneira como vemos o metabolismo nas nascentes", disse ele.

Fonte: Science News

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Predador do período Cambriano tinha olhos de assassino

Um predador temível, que nadou nos oceanos no período Cambriano era de facto um artrópode com metros de comprimento e uma visão do assassino, dizem os pesquisadores. O paleontólogo Dr. John Paterson, da Universidade da Nova Inglaterra, e os seus colegas, descobriram os restos fossilizados de olhos compostos de uma criatura chamada Anomalocaris.
"O facto de que cada olho do Anomalocaris teria tido mais de 16.000 lentes, significa que teria uma resolução muito, muito boa", diz Paterson, cujo trabalho foi publicado na revista Nature. "Quando você considera que uma mosca moderna, por exemplo, tem cerca de 3.000 lentes, é muito impressionante que um animal de há meio bilião de anos atrás tenha tido uma visão notável como esta."
Há cerca de 500 milhões de anos atrás, durante o Cambriano, grandes criaturas começaram a assemelhar-se a animais modernos, diz Paterson. "Mas ainda havia o estranho freak a nadar ao redor", diz ele, referindo-se ao Anomalocaris. "É um animal que está no seu caminho para se tornar um artrópode, de um ponto de vista evolutivo", afirma Paterson.
A criatura ter-se-ia movido através da água, movendo as barbatanas na direcção do comprimento do seu corpo num padrão ondulante, diz ele. Tinha um exoesqueleto mole como um camarão e garras ferozes e alimentava-se de organismos de corpo mole, como vermes.
Atributos ausentes
Mas o Anomalocaris apresentava-se um pouco como um quebra-cabeças para os cientistas porque, apesar de parecer que poderia ser um artrópode, faltavam-lhe determinados atributos. Os artrópodes incluem animais com patas articuladas, como insetos, aranhas, crustáceos e centopeias. "Mas quando você olha para o Anomalocaris, ele realmente não tem nenhumas pernas articuladas", disse Paterson.
Agora, a descoberta de olhos compostos fossilizados pertencentes ao animal confirmou que é, de facto, um artrópode.
"Os olhos compostos são, na verdade, uma característica dos artrópodes ", diz Paterson. Os olhos fossilizados foram descobertos ao lado de restos de garras e barbatanas corporais em xisto de Emu Bay, na costa norte de Kangaroo Island, ao largo do Sul da Austrália. Os tecidos moles dos olhos compostos foram lentamente substituídos por um mineral chamado pirite num sedimento de oxigénio, diz Paterson.
A descoberta suporta a ideia de que os olhos compostos apareceram muito cedo na evolução dos artrópodes, antes da evolução das pernas articuladas ou do exoesqueleto endurecido.
Olhos sofisticados
Os olhos surpreendentemente sofisticados do Anomalocaris encontram apenas rival nas libélulas modernas, que podem ter até cerca de 28 mil lentes em cada olho, diz Patterson. "As libélulas são conhecidas pela sua visão excepcional", diz ele. As lentes num olho composto podem ser comparadas a pixels no écran do computador, ou seja, quanto mais lentes você tiver, melhor a resolução.
O pequeno tamanho das lentes nos olhos do Anomalocaris sugere que o animal teria vivido em águas bem iluminadas e tinha uma grande vantagem sobre as suas presas. "Do pouco que sabemos sobre os contemporâneos do Anomalocaris, eles ou tinham uma visão bastante pobre ou eram completamente cegos", diz Paterson. Ele diz que a presença do Anomalocaris teria impulsionado o desenvolvimento de adaptações de proteção em animais que eram as suas presas, e, por sua vez, “contra-adaptações” nos predadores.
Paterson espera agora encontrar os restos de outras criaturas do Cambriano na Baía Emu Shale. "Seria ótimo encontrar um híbrido que se parecesse com o Anomalocaris mas que tivesse andando sobre as pernas. Isso seria belo limk que está em falta", diz ele.

Fonte: ABC Science

domingo, 25 de dezembro de 2011

Pontos de registo do paleoclima apontam para potenciais mudanças climáticas rápidas

Novas pesquisas sobre a história do paleoclima da Terra, efetuadas pelo director do NASA Goddard Institute for Space Studies, James E. Hansen, sugerem um potencial para mudanças rápidas do clima neste século, incluindo elevação do nível do mar de múltiplos metros, se o aquecimento global não for diminuido. Olhando como o clima da Terra respondeu a antigas alterações naturais, Hansen procurou a resposta para uma questão fundamental levantada pela mudança climática em curso causada pelo homem: "Qual é o nível perigoso do aquecimento global?" Alguns líderes internacionais têm sugerido uma meta ao limitar o aquecimento a 2ºC a partir de tempos pré-industriais, a fim de evitar uma mudança catastrófica. Mas Hansen disse numa conferência de imprensa numa reunião da União Geofísica Americana em San Francisco, que o aquecimento de 2ºC levaria a mudanças drásticas, como a perda significativa de gelo na Gronelândia e na Antártida.
Com base no trabalho de análise da temperatura efectuado por Hansen, do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, a temperatura da superfície da Terra média global já subiu 0,8ºC desde 1880, e agora está a aquecer à taxa de mais de 0,1ºC em cada década. Este aquecimento é, em grande parte, impulsionado pelos gases de efeito de estufa que aumentaram na atmosfera, principalmente dióxido de carbono, emitido pela queima de combustíveis fósseis em centrais de energia, nos carros e na indústria. No ritmo atual de queima de combustíveis fósseis, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera duplicou desde os tempos pré-industriais até meados deste século. A duplicação do dióxido de carbono provocará um eventual aquecimento de vários graus, disse Hansen.
Numa pesquisa recente, Hansen e o co-autor Makiko Sato, também do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, compararam o clima de hoje, o Holoceno, com épocas "interglaciais" anteriores - os períodos em que as calotas polares existiam, mas o mundo não estava coberto por glaciares. Através do estudo de núcleos perfurados tanto de folhas de gelo como de sedimentos oceânicos profundos, Hansen descobriu que a temperatura média global durante o período Eemiano, que começou há cerca de 130.000 anos atrás e durou cerca de 15 mil anos, era menos de 1ºC mais quente que a atual. Se as temperaturas subissem 2ºC acima do nível pré-industrial, a temperatura média global seria muito superior à do Eemiano, quando o nível do mar estava 4-6 metros mais elevado do que hoje, disse Hansen.
"O registo do paleoclima revela um clima mais sensível do que se pensava. Limitar o aquecimento causado pelo homem a 2ºC não é suficiente", disse Hansen. "Seria uma receita para o desastre."
Hansen concentrou grande parte do seu novo trabalho sobre a forma como as regiões polares e em particular as camadas de gelo da Antártida e da Gronelândia vão reagir a um mundo em aquecimento.
2ºC de aquecimento na Terra seria muito mais quente do que durante o Eemiano, e moveria a Terra para condições mais semelhante às do Plioceno, quando o nível do mar estava na faixa de 25 metros mais alto do que hoje, disse Hansen. Ao usar a história do clima da terra para saber mais sobre o nível de sensibilidade que governa a resposta do nosso planeta ao aquecimento de hoje, Hansen disse que o registo do paleoclima sugere que cada grau Celsius de aumento da temperatura global, em última análise equivale a 20 metros de elevação do nível do mar. No entanto, o aumento do nível do mar devido à perda de gelo seria esperado ocorrer ao longo de séculos, e grandes incertezas permanecem na previsão de como é que a perda de gelo vai ocorrer.
Hansen observa que a desintegração de folhas de gelo não será um processo linear. Essa deterioração não-linear já foi vista em lugares vulneráveis, tais como Pine Island Glacier no Oeste da Antártida, onde a taxa de perda de massa de gelo continuou a acelerar durante a última década. Dados da NASA's Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) apontam para uma taxa de perda de massa de gelo na Gronelândia e na Antártica Ocidental, que duplica a cada dez anos. O registo GRACE é muito curto para confirmar isso com grande certeza. No entanto, a tendência nos últimos anos não a descarta, disse Hansen. Esta taxa de perda de gelo contínua poderá causar vários metros de elevação do nível do mar até 2100, disse Hansen.
O gelo e núcleos de sedimentos oceânicos das regiões polares indicam que as temperaturas nos pólos durante as épocas anteriores - quando o nível do mar estava dezenas de metros mais elevado - não estão muito longe das que a Terra pode atingir neste século.
"Nós não temos uma margem substancial entre o clima de hoje e o aquecimento perigoso", disse Hansen. "A Terra está prestes a experimentar fortes feedbacks de ampliação em resposta ao aquecimento global adicional."
Considerações detalhadas sobre um alvo novo do aquecimento e como se chega lá estão para lá do âmbito desta pesquisa, disse Hansen. Mas esta pesquisa é consistente com os resultados anteriores de Hansen, que revelavam que a emissão de dióxido de carbono na atmosfera teria de ser revertida, passando das cerca de 390 partes por milhão na atmosfera de hoje para 350 partes por milhão, a fim de estabilizar o clima a longo prazo. Enquanto os líderes continuam a discutir um quadro de redução de emissões, as emissões globais de dióxido de carbono mantiveram-se ou aumentaram nos últimos anos.
Hansen e outros notaram que as evidências paleoclimáticas revelam um quadro claro do que o clima antes da Terra parecia, mas que usá-lo para prever com precisão como o clima pode mudar em escalas de tempo muito menores em resposta a alterações induzidas pelo homem, ao invés de mudanças climáticas naturais, continua difícil. Mas, Hansen observou, o sistema Terra já está a mostrar sinais de resposta, mesmo nos casos de "feedbacks lentos", tais como mudanças no gelo.
O aumento da libertação de dióxido de carbono de origem humana na atmosfera também apresenta aos cientistas do clima algo que nunca viram no registo dos níveis de dióxido de carbono nos últimos 65 milhões de anos - uma taxa de aumento drástico que torna difícil prever a rapidez com que a Terra vai responder. Nos períodos em que o dióxido de carbono tem aumentado devido a causas naturais, a taxa de crescimento média foi de cerca de 0,0001 partes por milhão por ano - em outras palavras, cem partes por milhão em cada milhão de anos. A queima de combustíveis fósseis está agora a fazer com que as concentrações de dióxido de carbono aumentem em duas partes por milhão por ano.
"Os seres humanos têm sobrecarregado as mudanças naturais e lentas que ocorrem em escalas de tempo geológico", disse Hansen.

Fonte: E! Science News