quarta-feira, 21 de março de 2012

Identificada a partícula subatómica mais leve de sempre

Primeira pergunta que nos vem à cabeça: para que serve a partícula subatómica mais leve de sempre? A desanimadora resposta é que ainda não se sabe. Mas sublinhe-se o “ainda”.
O investigador holandês Eef van Beveren, físico teórico da Universidade de Coimbra, que reclama ter identificado o novo bosão, avisa que “as implicações desta descoberta são de longo alcance, não apenas para física hadrónica (física das partículas que estuda as interacções fortes), mas também para física das altas energias e cosmologia.
A partícula até poderá ser utilizada como uma fonte de energia nuclear mais limpa, dado que se desintegra totalmente sem deixar resíduos”. Porém, o futuro promissor deste avanço no complexo mundo da física ainda estará longe, porque, admite o investigador, “para já, além da sua existência, não sabemos quase nada sobre esta partícula”.
“Ninguém estava à espera de uma descoberta destas”, repete Eef van Beveren sem esconder o entusiasmo. Eef van Beveren descreve esta nova partícula E(38) como uma “bolha de sabão”, acrescentando que é 25 vezes mais leve do que um protão e três vezes mais leve que um pião (a mais leve partícula que participa nas interacções nucleares).
O físico reconhece que é necessário ainda realizar estudos para avaliar as suas propriedades e o seu armazenamento, mas não hesita em anunciar o potencial do novo bosão. Para se imaginar a capacidade desta partícula, o físico calcula que “um miligrama desta matéria dará para um megawatt durante um ano”.
“A descoberta da E(38) constitui uma surpresa completa para a comunidade científica, porque se trata de uma partícula muito especial e mais leve do que quaisquer outras partículas com (anti)quarks. Descobertas destas só há uma vez por século!”, afirma o físico, que compara este feito ao momento em que o mundo da física percebeu que o átomo era composto por núcleo e electrões.
Já há vários anos que o físico teórico teimosamente insiste em explorar o modelo (matemático) que concebeu com o cientista George Rupp, do Instituto Superior Técnico de Lisboa, e que foi apresentado pela primeira vez no início da década de 80. Há mais de 20 anos que suspeitava da existência desta nova partícula subatómica ou, como faz questão de corrigir em conversa com o PÚBLICO, “talvez seja mais correcto chamar-lhe subnuclear”.
Desta vez, analisou os resultados obtidos com as experiências nos aceleradores de partículas em Bona (Alemanha) e no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN, na Suíça), entre outras instituições. O modelo de Van Beveren e Rupp permite descrever pormenorizadamente uma classe de partículas elementares, os mesões [partículas compostas por um quark e um antiquark].
Assim, segundo explica o comunicado da UC divulgado ontem, o físico “‘varreu’ todos os eventos registados nas experiências, mesmo os considerados irrelevantes, e num determinado espaço, um ínfimo espaço, registou uma quantidade de 46 mil eventos com 13 sigma de significância (o que é considerado mais que suficiente para a existência de uma partícula), ou seja, a evidência clara de um novo bosão”. Para reivindicar uma descoberta é preciso encontrar, pelo menos, 5 sigma de significância (um indicador de relevância estatística). “O que temos é um sinal muito claro, um pico enorme (ver imagem). Já há muito tempo que pensava nisto, fui o único a procurar e certo dia encontrei. Aqui está!”, conclui.
Para Brigitte Hiller, outra física da Universidade de Coimbra citada no comunicado, “a evidência da existência desta nova partícula de extrema leveza, a confirmar-se, terá implicações extraordinariamente importantes para a física, porque, na comunidade dos físicos das partículas, ninguém esperava que existisse uma partícula numa zona de energia tão baixa”.
Partindo do princípio básico de que um átomo tem em si inúmeras partículas (subatómicas) – as mais celebres são os electrões, protões e neutrões –, há muito que se explora este mundo da matéria. Em Dezembro, anunciava-se a descoberta de outra partícula subatómica – o bosão “chi b(3P)” – feita com o acelerador de partículas (LHC) do CERN. É também no Laboratório Europeu de Física de Partículas que se procura – numa aventura que é seguida atentamente pelos media – o tão popular bosão de Higgs, a partícula que poderá explicar a origem da matéria no Universo (e que, por isso, já ficou conhecida por “partícula de Deus”). Sobre isto Eef van Beveren prefere não fazer comentários. “São coisas que prefiro guardar no meu laboratório”, refere apenas, notando que o modelo padrão usado no CERN é diferente do modelo que desenvolveu, ou seja, métodos de procura diferentes que podem levar a descobertas diferentes.

Fonte: Público

terça-feira, 20 de março de 2012

Samsung e Optimus em guerra por causa de 4G

A fabricante diz que os seus telemóveis 4G não estão à venda; a operadora de telecomunicações garante que vendeu terminais da marca.
Após fonte oficial da Optimus, operadora de telecomunicações da Sonaecom, ter afirmado que esgotou os telemóveis de quarta geração móvel (4G), embora em número reduzido, da marca Samsung, a fabricante reafirmou ao final do dia as declarações feitas anteriormente à Lusa de que os seus terminais são apenas para experimentação dos consumidores nas lojas.
"A Samsung Portugal reafirma que todos os equipamentos 4G disponíveis nos operadores são exclusivamente para experimentação do consumidor", garantiu fonte oficial da fabricante.
"Não há equipamentos 'mass market'", ou seja, para venda, adiantou a mesma fonte.
Por seu lado, a Optimus reafirmou que todos os telemóveis da marca Samsung com tecnologia 4G nas lojas da operadora foram vendidos, embora tenha reconhecido que o número era reduzido.
A Optimus oficializou na quinta-feira o arranque dos serviços de quarta geração móvel, tendo o presidente executivo, Miguel Almeida, garantido que iria começar a vender telemóveis da Samsung 4G.

Fonte: Diário de Notícias

segunda-feira, 19 de março de 2012

Cientistas alertam para os riscos de próteses da anca de metal-metal

Depois dos implantes mamários, chegam os alertas sobre as próteses da anca de metal-metal. É mais uma polémica que coloca a segurança dos dispositivos médicos no centro das atenções dos especialistas.
Primeiro a explicação: há as próteses da anca que são fabricadas com todos os componentes de metal (com uma haste metálica inserida no fémur que termina numa esfera também metálica e que, por sua vez, se move num acetábulo de metal) e as que usam outros materiais, optando por exemplo pela combinação metal-plástico ou cerâmica. Os alertas que agora se fazem ouvir mais alto na comunidade científica dizem respeito apenas às próteses de metal-metal. De acordo com dois artigos publicados este mês - no British Medical Journal (BMJ) e no The Lancet -, estes dispositivos devem estar sob apertada vigilância. São próteses que precisam de mais revisões e têm uma maior taxa de substituições.
É mais uma polémica no mundo dos dispositivos médicos que levanta dúvidas sobre a actual regulação deste mercado na Europa e que, em número de pessoas potencialmente afectadas, ultrapassa em muito o recente e mediático caso dos implantes mamários. O problema das próteses da anca de metal-metal não é novo - em Agosto de 2010 anunciava-se a retirada do mercado de uma marca específica de próteses da anca feitas de metal por apresentarem "uma necessidade de revisão superior à esperada".
Mas a discussão ganhou outro fôlego com a divulgação de novos estudos que se debruçam sobre os efeitos destes dispositivos no nosso organismo. Ainda que os especialistas avisem que "não há razão para alarme", parece haver motivo para dedicar mais e melhor atenção aos portadores de próteses da anca de metal-metal. Em França e no Reino Unido, as autoridades de saúde recomendam que os portadores destas próteses (mesmo que assintomáticos) devem ser identificados e seguidos anualmente. Em Portugal, a estratégia a adoptar pela Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) está a ser discutida neste momento.
Entretanto, os estudos publicados parecem apontar para evidentes problemas nestes dispositivos. De acordo com um artigo publicado na semana passada no The Lancet, estas próteses apresentam uma alta taxa de fracasso. Os investigadores concluem mesmo que este tipo de dispositivos médicos não deve ser usado de todo. As taxas de revisão serão quatro vezes superiores nas mulheres, as probabilidades de substituição são três vezes maiores para os homens e, de uma forma geral, os pacientes mais jovens estão mais expostos a riscos com estas próteses, avisam ainda os investigadores da Universidade de Bristol que analisaram informação de mais de 400 mil procedimentos incluídos no registo nacional britânico. Os dados publicados revelam que, de uma forma geral, 6,2 % das próteses de metal-metal falharam num prazo de cinco anos (enquanto as de metal-plástico tinham uma taxa de insucesso de 1,7% e as de cerâmica 2,3%). E, adianta ainda a equipa de investigação de Bristol, o tamanho importa. Os maiores implantes também estão associados a riscos acrescidos, com cada milímetro da "cabeça" (esefera) a significar mais 2% de risco de revisão.
Pedro Granja, investigador do Instituto de Engenharia de Biomédica (INEB) da Universidade do Porto, as próteses de metal-metal tentaram ser uma resposta mais duradoura ao desgaste que se verificava nos dispositivos de metal-plástico. "A resistência do metal ao desgaste é bastante superior, permitindo que o implante dure consideravelmente mais tempo. No entanto, esta estratégia é mais recente e só agora se começam a notar, claramente, os efeitos nocivos dos iões metálicos libertados, que causam problemas inflamatórios, imunológicos e mesmo carcinogénicos", explica Pedro Granja. O especialista conclui: "Em consequência, a recomendação actual parece ser a de manter o sistema metal-plástico, que, apesar de resultar numa inevitável revisão, não causa os danos nocivos provocados pelo sistema metal-metal. Este último, não só parece resultar em taxas de revisão superiores como também numa diminuição da taxa de sucesso das mesmas."
Semanas antes da publicação deste estudo no The Lancet, as autoridades de saúde do Reino Unido tinham já referido que os pacientes com próteses de metal-metal precisariam de fazer anualmente análises ao sangue devido a esta hipótese de contaminação com os iões metálicos. Um trabalho publicado este mês no BMJ também concluiu que há necessidade de acompanhar e vigiar os doentes com próteses da anca de metal-metal, anualmente.

Fonte: Público

domingo, 18 de março de 2012

Parasita consegue “manipular” o comportamento de ratinhos

Quando os ratinhos, que têm naturalmente muito medo dos felinos, têm cistos no cérebro devido a uma infecção crónica pelo parasita Toxoplasma gondii, começam a andar mais depressa e durante mais tempo... e o medo de serem caçados diminui. Este autêntico jogo do gato e do rato virado do avesso – e cujos cordelinhos são literalmente puxados por um microorganismo – foi agora revelado por Cristina Afonso e Vítor Paixão, da Fundação Champalimaud, e foi nesta quarta-feira à noite publicado online na revista de livre acesso PLoS ONE.
O Toxoplasma é um protozoário capaz de infectar todos os mamíferos, mas cujo hospedeiro final são os felinos, onde se reproduz de forma sexuada (nos roedores, hospedeiros intermédios, reproduz-se por clonagem). Ora, se os ratinhos se tornarem mais aventureiros, os gatos apanham-nos mais facilmente, aumentando as chances de o parasita conseguir infectar o seu hospedeiro final.
A infecção no ratinho começa com uma fase aguda, durante a qual o animal perde muito peso, e a seguir torna-se crónica, com o parasita a formar pequenas bolsas, ou cistos, cerebrais. Já se suspeitava que, estando alojado no cérebro, o parasita pudesse induzir alterações comportamentais nos roedores. Por exemplo, observações de laboratório sugeriam que os ratinhos infectados, em vez de fugirem a sete pés do cheiro a gato, se tornavam indiferentes a ele e até podiam achá-lo “interessante” porque activava áreas cerebrais associadas, como o prazer sexual. “Como se pensassem, ‘espera lá, isto não é um predador, é uma fêmea!’”, diz-nos Cristina Afonso em conversa telefónica.
Mas por outro lado, em várias quintas do Reino Unido, constatou-se há uns anos que a maioria dos ratinhos apanhados em armadilhas estavam infectados pelo Toxoplasma. Isto levou os investigadores portugueses a perguntarem-se se o parasita não produziria também outras alterações comportamentais, nomeadamente da forma como os ratinhos exploravam o ambiente e avaliavam os riscos. “Uma armadilha não é um predador”, diz Cristina Afonso, “e quisemos saber se não haveria também alterações comportamentais que não tivessem a ver com predadores”.
Os cientistas decidiram então medir, no laboratório, as características dos movimentos de exploração realizados por ratinhos com toxoplasmose crónica, ou seja com cistos cerebrais. Colocaram os animais numa grande caixa e deixaram-nos explorá-la livremente, medindo a velocidade, a distância percorrida, vendo se permaneciam mais tempo na zona central, mais exposta, ou na periferia da caixa, mais resguardada. Num segundo tipo de experiências, puseram os animais numa estrutura em forma de cruz, colocada a uma certa altura e que tinha as extremidades de dois dos seus braços abertas (para o “precipício”, por assim dizer) e as dos outros dois fechadas. A ideia neste caso era determinar como os ratinhos avaliavam o “risco ambiental”, uma medida do seu nível de medo – ou da falta dele. “Normalmente, os ratinhos receiam espaços abertos e alturas”, salienta Cristina Afonso. “Mas os ratinhos infectados passavam bastante mais tempo nos braços abertos [da cruz], não se importavam de ir mesmo até à beirinha e quase que saltavam. Estavam relaxadíssimos.”
Os vídeos registados durante as experiências foram analisados automaticamente por computador e a seguir, uma análise estatística confirmou de facto alterações em dois tipos de comportamentos: na forma como os ratinhos organizavam o seu movimento e na sua temeridade. “Andavam mais depressa e durante mais tempo”, explica ainda a cientista. “Normalmente, os ratinhos mexem-se e param, mexem-se e param – mas estes não paravam. Um animal que é uma presa mexe-se com cautela, mas estes quase que pareciam kamikazes, não paravam de se expor ao perigo.”
E agora “a pergunta que vale um milhão de dólares”, diz Cristina Afonso: haverá uma relação entre as áreas do cérebro onde há cistos e o comportamento alterado? Os cientistas analisaram a distribuição dos cistos no cérebro dos animais e descobriram algo de totalmente inédito: que, apesar de os cistos estarem espalhados por todo o cérebro, a sua distribuição não era aleatória. Uma nova análise estatística mostrou que, no cérebro dos animais mais aventureiros, os cistos parecem estar distribuídos por várias áreas que comunicam entre si, o que os leva a pensar que o parasita poderá agir, não sobre uma região cerebral específica, mas antes sobre um circuito cerebral que comanda esse comportamento de risco.
Aqui, Cristina Afonso faz uma pausa para lembrar que “o parasita não tem vontade própria nenhuma!”, alertando para a nossa tendência a humanizar tudo. “O que pensamos que aconteceu é que, ao longo da evolução, foram seleccionados os parasitas que melhor conseguiam alterar o comportamento dos roedores e que, portanto, melhor conseguiam reproduzir-se no gato.” Não resistimos a perguntar: e os seres humanos? O nosso comportamento também poderá ser “manipulado” por parasitas? “Existem correlações [da toxoplasmose] com a esquizofrenia”, responde-nos. E também com acidentes de viação ou as taxas de suicídio. Isto poderá corresponder ao mesmo tipo de alteração do comportamento de risco observado nos ratinhos, mas é apenas uma especulação. E mesmo os resultados agora publicados, obtidos em animais de laboratório, precisam de ser confirmados em condições mais naturais, salienta.
Mais: até é possível que as alterações comportamentais produzidas pelo contacto com microorganismos potencialmente patogénicos sejam em muitos casos benéficos, como sugere ainda um outro resultado, muito surpreendente, obtido pelos cientistas. Quando analisaram o comportamento de ratinhos que, apesar de terem sido infectados pelo Toxoplasma, não tinham desenvolvido qualquer sintoma de doença e não tinham cistos no cérebro, descobriram que esses animais também apresentavam alterações comportamentais – só que em sentido totalmente oposto! “Tinham-se tornado hiper-cautelosos”, diz Cristina Afonso. A equipa tenciona agora “descascar o mecanismo de manipulação do comportamento dos ratinhos pelo Toxoplasma. O que é que o parasita faz?”, interroga-se a cientista. “E quais são as respostas do cérebro?”

Fonte: Público

sábado, 17 de março de 2012

Rejeição sexual leva moscas ao álcool

Uma experiência sugere que a privação sexual torna o comportamento dos insectos menos favorável para a espécie.
Há quem não aguente a rejeição e procure afogar as mágoas amorosas na bebida. Isto aplica-se aos humanos, claro, mas segundo um novo estudo científico, os machos das vulgares moscas-das-frutas, quando privados de sexo, também procuram os prazeres do álcool.
A experiência foi realizada por uma equipa da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e visou investigar como funciona o sistema cerebral de recompensa e como este influencia comportamentos adequados à sobrevivência da espécie. O trabalho, publicado na revista Science, sugere que a insatisfação sexual está ligada ao aumento de uma substância (um neurotransmissor chamado neuropeptido F, ou NPF) no cérebro dos machos. Nos humanos, existe uma substância semelhante e a experiência poderá ter relevância em futuros tratamentos do alcoolismo.
Os investigadores usaram machos de Drosophila melanogaster e colocaram um grupo na companhia de fêmeas virgens prontas a copular e outro grupo em contato com fêmeas que já tinham acasalado. Estas rejeitam qualquer novo avanço de machos e fazem-no de forma drástica.
Aos dois grupos foram apresentadas opções alimentares idênticas, mas escolheram de forma distinta. Os sexualmente satisfeitos preferiam a comida normal, os insatisfeitos iam para a comida enriquecida com álcool em 15% e consumiam-na em grandes quantidades. Os animais privados do sexo tinham níveis de NRP equivalentes a metade do que existia no cérebros dos machos do grupo que andava consolado. O neurotransmissor que orientava o comportamento benéfico para a espécie estava ausente nas moscas que se tinham habituado à rejeição.

Fonte: Diário de Notícias