segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Biodiversidade das Berlengas mais mediterrânica

A fauna e a flora subaquáticas das Berlengas, ao largo de Peniche em pleno Atlântico, estão cada vez mais mediterrânicas, afirmam os cientistas que estão até dia 30 a participar naquela que é a maior expedição científica à zona.
Desde segunda-feira a bordo do antigo bacalhoeiro 'Creoula', Estibaliz Berecibar parte para mais um mergulho, em conjunto com outros investigadores, em busca dos muitos segredos ainda por revelar pela riqueza subaquática das Berlengas, Reserva da Biosfera da Unesco.
O arquipélago é considerado o maior viveiro natural da costa oeste atlântica, não só por ser a fronteira entre as águas frias e quentes, mas também por beneficiar da proximidade ao Canhão da Nazaré.
O mergulho, entre os mais de 24 já realizados a 30 metros de profundidade, veio a revelar-se numa nova descoberta. Pela primeira vez, a investigadora observou nas Berlengas duas espécies de algas ('gloiocladia microspora' e 'digenea simplex') típicas do Mar Mediterrâneo, à semelhança de outras.
Após observar fenómenos de emigração idênticos em relação a outras espécies, a bióloga acredita cada vez mais que "as Berlengas são o limite norte para muitas espécies do Mediterrâneo", que nos últimos anos começaram a expandir-se para a costa oeste do Atlântico.
"A paisagem debaixo de água está a ficar mais tropicalizada", afirma, e uma das justificações apontadas pode estar relacionada com as alterações climáticas.
Frederico Dias, coordenador da missão, não descura também as correntes marítimas "que saem do Estreito de Gibraltar e que têm tendência a virar para norte", permitindo a fixação de espécies nas Berlengas, dadas as excelentes condições naturais que aí encontram.
Por outro lado, é a oeste das Berlengas que se situa um importante "corredor marítimo de navios da Marinha mercante oriundos do Mediterrâneo", cujos cascos poderão trazer algumas dessas espécies que acabam por conseguir sobreviver e desenvolver-se nas Berlengas.
A bordo do 'Creoula', cujo convés mais parece um laboratório ao ar livre, a restante equipa estuda e cataloga as espécies e aguarda em grande expectativa cada saída de mergulho. Desde o início da expedição, já foram observadas 50 novas espécies nas Berlengas a juntar-se às cerca de 400 já conhecidas, nomeadamente 'briozoários' (animais que parecem plantas), um coral, um peixe, algas e 'poliquetas' (semelhantes a vermes).
A campanha é promovida pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), envolvendo cerca de 80 pessoas, entre mergulhadores, investigadores e estudantes universitários que, repartidos em dois grupos, estão a fazer a cartografia e caracterização de espécies e habitats existentes nas Berlengas.

Fonte: Diário de Notícias

domingo, 23 de setembro de 2012

Há uma enorme rã nas Caraíbas que come tarântulas e serpentes

Na escuridão da noite nas florestas das Caraíbas, a galinha-da-montanha - uma das maiores rãs do mundo - foi surpreendida a comer tarântulas e serpentes. Entre os investigadores está um biólogo português.
No mundo animal, as tarântulas e as serpentes estão entre os maiores predadores das rãs. Mas desta vez, a história acontece ao contrário. Gonçalo M. Rosa, do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e outros investigadores que trabalharam na ilha de Montserrat, no mar das Caraíbas, em 2009, descobriram grandes rãs de tons acastanhados - as galinhas-da-montanha (Leptodactylus fallax) - a comer tarântulas-de-montserrat (Cyrtopholis femoralis), espécie endémica daquela ilha. Na verdade, aquela rã é o primeiro predador confirmado da tarântula-de-montserrat, dizem os autores do estudo publicado esta semana na revista Tropical Zoology.
A rã de hábitos nocturnos, que passa o dia escondida em buracos e reentrâncias nas rochas, alimenta-se sobretudo de pequenos grilos e pequenas aranhas que encontra no chão da floresta. Mas afinal o seu menu é mais diversificado. A primeira observação do desfecho desta interacção entre os dois gigantes de Montserratt aconteceu a 28 de Agosto de 2009, às 23h55, na zona de maior biodiversidade da ilha.
"Quando nos aproximámos da rã, vimos que tinha uma tarântula na boca, com quatro patas de fora (...). Depois de ter engolido duas vezes, a tarântula estava completamente consumida", numa "refeição" que durou cerca de quatro minutos, segundo o artigo científico publicado a 17 de Setembro pelos investigadores da Universidade de Kent, do Durrell Wildlife Conservation Trust, Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Museu Nacional de Ciências Naturais de Espanha, Sociedade Zoológica de Londres e dos Zoos de Perth e Chester.
A 9 de Setembro de 2009, às 20h, uma tarântula dirigiu-se devagar na direcção de uma rã quando foi subitamente capturada. Desta vez foram precisos seis minutos para a galinha-da-montanha acabar de comer a tarântula.
Estas observações foram feitas durante uma expedição coordenada pelo Zoo de Jersey, e da qual Gonçalo M. Rosa fez parte, para tentar travar a progressão do fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que ameaça a galinha-da-montanha. "Encontrámos vários indivíduos a comer tarântulas quando fazíamos as saídas de campo nocturnas", contou o investigador português.
Segundo Gonçalo M. Rosa, "as rãs não serão propriamente imunes ao veneno das tarântulas. Mas as rãs abocanham, mordem e mastigam as tarântulas de tal forma que não lhes dão oportunidade de espalhar o veneno", explicou.
Mais tarde, em Outubro de 2011 e na ilha de Dominica, investigadores encontraram restos de serpente-de-julia (Liophis juliae) nas fezes da mesma espécie de rã. Na opinião do biólogo - cientista tanto no Instituto Durrell de Conservação e Ecologia da Universidade de Kent, no Reino Unido, como no Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa - este estudo "dá-nos uma perspectiva que não é tão usual: a maioria dos relatos de interacção de rãs e tarântulas mostram estes aracnídeos como predadores vorazes das indefesas rãs. Aqui assistimos ao oposto: uma rã a ingerir sem problemas uma tarântula", contou Gonçalo M. Rosa ao PÚBLICO. Além disso, a rã "apresenta uma dieta da qual também fazem parte serpentes. Impressionante, não?"
Contudo, as capacidades predatórias da rã não lhe garantem a sobrevivência. Hoje, a galinha-da-montanha - que, segundo Gonçalo M. Rosa, é assim chamada pelos locais pelas grandes dimensões que atinge e o seu sabor a galinha quando cozinhada - está classificada como Criticamente Ameaçada pela União Mundial de Conservação da Natureza (UICN). Esta espécie existia em pelo menos seis ilhas das Caraíbas mas hoje já só existe em duas: Montserrat e Dominica.
"As observações feitas ajudam a um melhor conhecimento da biologia e ecologia da espécie", ajudando à conservação da rã, nomeadamente aos esforços de reprodução em cativeiro, acredita o investigador.
Segundo os investigadores que assinam o artigo, o declínio deste anfíbio deve-se à perda de habitat, sobrecaça para consumo e espécies exóticas invasoras. "A recente introdução do fungo Batrachochytrium dendrobatidis naquelas duas ilhas causou um declínio dramático nas populações que ainda restavam", acrescentam os investigadores. "A população de Dominica foi quase extirpada na sua totalidade e a de Montserrat foi afectada pelo fungo mais tarde. Em muitos ribeiros da ilha os números baixaram também drasticamente. Vários programas têm juntado esforços para proteger esta espécie e eu juntei-me a um deles em 2009."
Gonçalo M. Rosa apontou ainda outro obstáculo à rã - o vulcão da ilha de Montserrat. "Este tem tido uma actividade muito intensa e um terço da ilha está inacessível, sob as cinzas. Muitas áreas de floresta desapareceram. Ainda não conhecemos bem quais os impactos directos na rã, mas podemos dizer que o vulcão dificulta os trabalhos de conservação", explicou o biólogo.

Fonte: Público

sábado, 22 de setembro de 2012

Curiosity descobre rocha com forma de pirâmide

Com uma estranha forma de pirâmide e do tamanho de um bola de rugby, a rocha batizada de "Jake Matijevic" encontrada pela sonda Curiosity será a primeira análise do braço robótico.
A Curiosity, a sonda da NASA que chegou a Marte no mês passado, encontrou no seu caminho uma rocha com a forma de uma pirâmide que será o primeiro elemento a ser examinado pelo braço robótico da sonda.
Apenas 2,5 metros separam o veículo do seu objetivo. A rocha foi batizada de "Jake Matijevic" em homenagem a Jacob Matijevic, um engenheiro chefe da missão que morreu exatamente há um mês, pouco dias depois da Curiosity ter pousado no Planeta Vermelho.
A estranha rocha, de 25 centímetros de altura por 40 de largura, será a primeira análise de forma cruzada, ou seja que permita o cruzamento de dados.
A Curiosity encontra-se agora a meio do caminho desde que pousou, em Bradbury até ao seu destino, um local designado de Glenelg. As distâncias que percorre diariamente não parecem muito longas - de 22 a 37 metros -, mas a NASA está mais do que satisfeita.

Fonte: Diário de Notícias

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Os circuitos cerebrais resultam de encontros acidentais entre neurónios

Um cérebro humano contém à volta de cem mil milhões de células nervosas e um número ainda muito maior de ligações, ou sinapses, que ligam essas células e lhes permitem comunicar entre si. E um dos grandes desafios das neurociências actuais é mapear essa intricadíssima cablagem - o já célebre conectoma -, que faz do nosso cérebro o mais complexo órgão que se conhece. Mas, para isso, é preciso desvendar as regras que governam o estabelecimento das sinapses entre neurónios - saber o que leva cada neurónio, no cérebro em formação, a ligar-se efectivamente com uma série de congéneres, mas não com todos.
Sabe-se que a construção dos circuitos cerebrais é guiada em particular por sinais químicos específicos entre neurónios, uma espécie de sistema de "cheiros" que faz com que dois neurónios se atraiam ou se repelem. Mas, agora, surpreendentes resultados publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences sugerem que essa é apenas uma pequena parte da história. Henry Markram e colegas, da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), concluem que o essencial da construção do incrível emaranhado de ligações neuronais que temos na cabeça se deve, ao que tudo indica, a... uma série de encontros acidentais entre neurónios.
"O que nós descobrimos é que a regra de base do estabelecimento de sinapses entre neurónios é muito simples", diz Markram numa entrevista no site da EPFL. "Pensamos que os neurónios crescem da forma mais independente possível uns dos outros e que formam sinapses essencialmente nos locais onde, acidentalmente, colidem entre si", salienta.
Estes cientistas estavam à procura de regras que lhes permitissem determinar a localização das sinapses porque estão a desenvolver, desde 2005, um projecto baptizado Blue Brain, cujo derradeiro objectivo é simular um cérebro humano realista num computador.
Neste seu mais recente trabalho, utilizaram 20 anos de resultados experimentais baseados em amostras de córtex cerebral de ratinhos para, por um lado, obter modelos 3D de todos os tipos de neurónios presentes nesses tecidos e, por outro, ver onde se formavam as sinapses nesses circuitos reais.
A seguir, criaram um modelo virtual do circuito cerebral do ratinho. "Pusemos todos esses modelos de células num espaço 3D virtual e utilizámos um algoritmo e um supercomputador Blue Gene da IBM para determinar onde é que os neurónios se cruzavam entre si", frisa Markram. Era lógico, numa primeira aproximação, supor que as sinapses só se pudessem formar nesses cruzamentos.
Mas aquilo de que os cientistas não estavam mesmo à espera, ao compararem o mapa das sinapses "acidentais" gerado pelo computador com o das sinapses reais nas amostras de tecidos, era de descobrir que esses dois mapas fossem tão semelhantes. "Tirando algumas excepções, que também podemos tomar em conta no modelo, conseguimos prever a localização das sinapses", diz o cientista.
Mas então, se não é um sinal químico que determina se um neurónio se vai ou não ligar a outro, o que é? É a própria forma do neurónio, afirma. "Os neurónios só "sabem" qual a forma que vão ter e, quando crescem todos juntos, fazem o que devem quando acidentalmente se encontram", salienta o investigador. Sem recorrerem a quaisquer sinais químicos; basta deixar os neurónios virtuais desenvolver a morfologia certa e tudo corre como na realidade em 75 a 95% dos casos.
Os resultados também permitem explicar por que é que o cérebro pode recuperar a seguir a uma lesão. "Esta maneira de posicionar as sinapses é muito robusta, permite a perda de muitos neurónios", diz Markram. E também por que é que dois cérebros da mesma espécie são tão parecidos entre si. "A diversidade morfológica dos neurónios de cada espécie faz com que os circuitos cerebrais dessa espécie sejam basicamente iguais de um indivíduo para outro", salienta.
A confirmarem-se, lê-se na revista New Scientist, os resultados também poderão ajudar a perceber a origem de doenças tais como a esquizofrenia, que se pensa serem devidas a falhas na cablagem cerebral. "Os neurónios com malformações, que não se ligam correctamente aos outros, poderiam ser um factor nestas doenças", explica aquela publicação.
Para além da surpresa do resultado em si, esta foi uma muito boa notícia para o projecto de simulação do cérebro humano em que a equipa está envolvida, na medida em que torna o mapeamento do cérebro muito mais fácil. "Se não fosse assim", diz Markram, "poderia levar décadas, para não dizer séculos, a mapear a localização de cada sinapse no cérebro. Isto aumenta enormemente a nossa capacidade de construir modelos realistas".O projecto Blue Brain, coordenado por Markram, foi fundado por um grupo internacional de 13 instituições, entre as quais o Instituto Sanger do Wellcome Trust (Reino Unido), Instituto Karolinska (Suécia), Instituto Pasteur (França), Universidade Politécnica de Madrid (Espanha), Universidade Hebraica (Israel) e Universidade Técnica de Munique (Alemanha). Até ao final deste ano, este consórcio - que reúne cerca de 150 equipas científicas, três das quais portuguesas (da Fundação Champalimaud, da Universidade de Coimbra e da Universidade do Minho) - deverá saber se o seu projecto, que apresentou no ano passado no âmbito da iniciativa Tecnologias Futuras e Emergentes (FET) da União Europeia, irá receber um financiamento de 100 milhões de euros por ano durante dez anos para construir um "modelo de silício" do nosso cérebro.

Fonte: Público

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Será que Jesus era casado?


Um pedaço de um papiro escrito no século IV em copta (a língua dos antigos cristãos egípcios) inclui as palavras "Jesus disse-lhes, a minha mulher". A descoberta deverá relançar o debate sobre se Jesus era ou não casado.
A existência do fragmento - não muito maior do que um cartão de visita - foi divulgada numa conferência em Roma por Karen King, professora na Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts. A professora baptizou o documento como "o evangelho da mulher de Jesus".
"A tradição cristã há muito defende que Jesus não era casado, apesar de existirem provas históricas fidedignas que apoiam essa teoria", disse King, num comunicado revelado pela universidade. "Este novo evangelho não prova que Jesus era casado, mas diz-nos que o tema só surgiu como parte de um intenso debate sobre sexualidade e casamento", acrescenta.
"Desde o início, os cristãos discordavam sobre se era melhor não casar, mas só um século após a morte de Jesus começaram a recorrer ao estatuto marital de Jesus para defender as suas posições", indicou. Só a partir de 200 d.C. é que começaram a surgir indicações, através de um teólogo conhecido como Clement de Alexandria, de que Jesus não era casado. "Este fragmento sugere que outros cristãos do mesmo período defendiam que era casado", concluiu.
Apesar da insistência da Igreja Católica de que Jesus não era casado, a ideia reaparece com alguma frequência. A última vez, com a publicação em 2003 de "O Código Da Vinci", o best-seller escrito por Dan Brown, que irritou muitos cristãos por se basear na ideia de que Jesus era casado com Maria Madalena e tinha filhos.
Os peritos acreditam que o novo evangelho é autêntico, sendo contudo necessário realizar mais testes. O fragmento, propriedade de um colecionador privado que pediu a King ajuda na tradução e análise, terá sido descoberto no Egito ou talvez na Síria.

Fonte: Diário de Notícias