quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Feliz Halloween


Escaravelho usa a bola de estrume como aparelho de ar condicionado, com sauna incluída

Já se sabia que as bolas de estrume transportadas pelos escaravelhos são usadas como alimento, fertilizante e incubadora de ovos. O que não se sabia, e um grupo de cientistas descobriu agora, é que os escaravelhos do estrume também usam as bolas para se refrescarem, como um aparelho de ar condicionado portátil.
Oriundos de regiões onde as temperaturas atingem os 50 graus Celsius, como o Senegal, Moçambique ou Zimbabwe, estes animais desenvolveram técnicas para se manterem frescos e suportarem o calor.
O transporte das bolas de estrume é feito quase sempre pelos machos, que as encaminham até à toca escavada pela fêmea. Ela é importante para a sua sobrevivência, mas a caminhada não deixa de ser uma tarefa difícil, se pensarmos no esforço que têm de fazer para transportar uma bola maior do que eles, de cabeça para baixo e com as patas da frente a tocar o chão, que está muito quente. As bolas chegam a atingir quatro centímetros de diâmetro, enquanto este escaravelho tem três, no máximo.
Usando a técnica de termografia infravermelha, que permite determinar a temperatura de um corpo sem ser necessário tocar-lhe, o grupo de cientistas liderado por Jochen Smolka, da Universidade de Lund, na Suécia, mostrou que os escaravelhos do estrume também usam a sua bola como refugio térmico portátil, subindo para ela quando a temperatura do solo é muito alta.
Feito com escaravelhos da espécie Scarabaeus Lamarcki, o estudo foi dividido em três partes. Na primeira, os cientistas analisaram o comportamento dos escaravelhos a empurrar a bola pelo chão, que atingia primeiro 51,3 graus Celsius e depois 57 graus. Na segunda parte, repetiram a experiência no chão mais quente (com os 57 graus), mas calçaram aos escaravelhos umas botas de silicone, para não sentirem o calor. Na última parte, os escaravelhos foram convidados a empurrar primeiro uma bola de estrume que tinha estado no frigorífico e depois outra que tinha sido aquecida.
No primeiro caso, quando o chão estava menos quente (51,3 graus), os escaravelhos empurraram a bola sem parar, mas quando estava mais quente paravam frequentemente e iam para cima dela. No segundo teste, apesar de a temperatura do chão ser elevada, como os escaravelhos tinham as botas calçadas não sentiam o calor do chão e, por isso, subiram menos vezes para a bola do que quando estavam descalços. Já no terceiro teste, subiam menos para as bolas arrefecidas no frigorífico do que para as que tinham sido aquecidas, porque a evaporação ocorrida nestas bolas ajudava-os a refrescarem-se. Tinham assim uma sauna privada.
Publicado na revista Current Biology, este estudo permitiu concluir que os escaravelhos sobem mais para as bolas, quando o calor aperta, e fazem-no sete vezes mais depressa, quando chão está mais quente. “Os escaravelhos usam a bola para se refrescar, porque aquecem com facilidade a empurrar uma enorme bola de estrume sobre a areia ardente de África”, diz Smolka, num comunicado.
Registadas em vídeo, as imagens do transporte do estrume permitiram ainda ver que os escaravelhos ficam algum tempo a passar as patas pela cara quando sobem para bola, como se estivessem a lavá-la. Para a equipa, este comportamento é semelhante ao das formigas do deserto, que regurgitam um líquido para as patas para as refrescarem.
O caso dos escaravelhos e das suas bolas de estrume mostra, no final, como os seres vivos são versáteis. “Através da evolução, estruturas já existentes adaptam-se a novas finalidades — neste caso, é o uso de uma fonte de alimento para termorregulação”, remata o cientista.

Fonte: Público

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Há duas maneiras de esquecer uma má recordação por vontade própria

No filme O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), as personagens interpretadas por Jim Carrey e Kate Winslet decidem apagar das suas mentes todas as recordações do outro. Já não se amam e querem ver-se livres dessa parte da sua vida. Para isso, submetem-se a um procedimento não cirúrgico capaz de limpar “cirurgicamente” a memória.
Agora a sério: se quisesse bloquear, reprimir, esquecer algo muito desagradável que viveu ou presenciou, se se propusesse apagar essa má recordação da sua cabeça, como acha que faria? Diversos estudos realizados ao longo da última década sugerem que existem pelo menos duas maneiras de suprimir deliberadamente uma má recordação. E agora, pela primeira vez, uma equipa de cientistas britânicos concluiu não apenas que esses dois mecanismos funcionam mesmo, mas que cada um deles se processa através de um circuito cerebral diferente. “Este estudo mostra pela primeira vez a existência de dois mecanismos que conduzem ao esquecimento intencional”, diz em comunicado Roland Benoit, da Universidade de Cambridge, que liderou o estudo, publicado numa das últimas edições da revista Neuron.
As duas estratégias que permitem esquecer, “com o controlo da mente”, por assim dizer, aquela gaffe monumental que cometemos no jantar do outro dia — ou, num registo mais sombrio, aquela cena de violência que nos deixou tão perturbados — são, no fundo, opostas uma da outra. A primeira consiste simplesmente em obrigarmo-nos a bloquear a memória funesta quando surge; a segunda, em fomentar a sua substituição por outra, mais agradável, de cada vez que a recordação indesejável nos acossa. Em ambos os casos, o objectivo é não deixar a má recordação tornar-se consciente.
Para ver o que acontecia no cérebro durante a utilização de cada uma destas abordagens, os cientistas recorreram à técnica de ressonância magnética funcional, que permite visualizar as zonas que se activam no cérebro das pessoas, enquanto elas efectuam uma dada tarefa. Neste caso, os participantes no estudo, que tinham começado por memorizar certas associações entre pares de palavras, tentavam a seguir esquecer essas associações quer através do seu bloqueio, quer da sua substituição.
Os investigadores puderam assim observar que cada uma das estratégias, que se revelaram ser igualmente eficazes — tanto uma como a outra resultaram efectivamente num esquecimento —, activava circuitos neuronais distintos. Durante a supressão de uma memória, o córtex pré-frontal dorsolateral inibia a actividade do hipocampo, estrutura cerebral essencial à rememoração de acontecimentos passados (é no córtex, a “casca” do cérebro humano, onde residem as nossas funções cognitivas mais sofisticadas). Mas durante a substituição por outra memória, a actividade verificava-se em duas outras regiões: no córtex pré-frontal caudal e no córtex pré-frontal mesoventrolateral, “ambas envolvidas em fazer uma memória entrar na nossa consciência mesmo quando outras memórias estão a desviar a nossa atenção”, explica o comunicado.
“Uma melhor compreensão destes mecanismos e dos seus componentes”, diz Benoit, “poderá um dia ajudar-nos a perceber as perturbações da regulação das memórias, tal como o stress pós-traumático.” Segundo o investigador, o facto de saber quais são os processos neurais que contribuem para o esquecimento pode ser útil do ponto de vista terapêutico, porque talvez haja pessoas que têm mais jeito para pôr em prática uma das estratégias do que a outra.

Fonte: Público

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Corrente de estrelas é sugada pela Via Láctea

Astrónomos da Universidade de Yale descobriram uma corrente de estrelas, possivelmente pertencente aos restos de um aglomerado de galáxias, que está a ser lentamente engolida pela nossa galáxia, a Via Láctea.
"A Via Láctea engole constantemente pequenas galáxias e aglomerados de estrelas", explicou a astrónoma Ana Bocana, citada pelo ABC. A investigadora publicará em breve uma explicação sobre o assunto na revista "Astrophysical Journal Letters". "A poderosa gravidade da nossa galáxia atraí objetos e estrelas que passam a fazer parte da Via Láctea", conclui a pesquisadora.
"A nossa descoberta é mais um ligeiro aperitivo do que uma refeição abundante para a Via Láctea", diz Marla Geha, professora de astronomia na Universidade de Yale e co-autora da pesquisa. "O estudo em detalhe deste processo é muito importante porque nos pode dar novas visões de como as galáxias se formam e evoluem".
A nova corrente de estrelas é a primeira do seu género que a encontrar-se no céu do hemisfério sul galáctico, uma região difícil de estudar devido à falta de imagens do céu profundo nessa zona. Imagens como esta, com maior profundidade, permitem aos astrónomos a detecção de estrelas mais fracas.

Fonte: Diário de Notícias

domingo, 28 de outubro de 2012

Troca de mitocôndrias pode acabar com doenças transmitidas pela mãe

Uma série de doenças genéticas é causada por mutações no ADN das mitocôndrias, as "baterias" das células, mas pode ser possível trocar literalmente essas estruturas celulares por versões não defeituosas.
Chama-se Chrysta, é uma macaca-rhesus e nasceu há uns meses na Universidade de Saúde e Ciência do Oregon, nos EUA. Segundo os seus criadores, ela está a desenvolver-se normalmente - o que é muito importante, porque Chrysta não é uma macaquinha como as outras. Não só o seu nascimento como também o seu estado de saúde, que irá continuar a ser monitorizado de muito perto, mostram que talvez seja possível um dia erradicar as chamadas doenças mitocondriais, um tipo de doenças genéticas humanas que são transmitidas exclusivamente pela mãe à sua descendência.
As mitocôndrias são as "baterias" das células e possuem um bocadinho de ADN próprio, com um total de 37 genes. E quando certas mutações se verificam no ADN mitocondrial, "a criança pode nascer com graves doenças, incluindo diabetes, surdez, problemas oculares e gastrointestinais, doenças cardíacas, demência e várias outras doenças neurológicas", diz em comunicado Shoukhrat Mitalipov, do Centro Nacional de Investigação em Primatologia - e um dos "pais científicos" de Chrysta -, que, com a sua equipa e com colegas do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da mesma universidade do Oregon, publica os seus resultados na edição da revista Nature desta semana.
Como as mitocôndrias da mãe passam para os seus futuros filhos exclusivamente via o citoplasma (a "clara") dos seus ovócitos, estes cientistas pensaram que seria possível, simplesmente, "deixar para trás" o ADN mitocondrial defeituoso transferindo o ADN nuclear (99% do genoma) desses ovócitos para ovócitos portadores de ADN mitocondrial normal. Para isso, desenvolveram uma técnica de transferência do ADN nuclear (em inglês, spindle transfer). A primeiras crias de macacos-rhesus geradas a partir de ovócitos submetidos a esta "troca" genética nasceram em 2009 e hoje, três anos mais tarde, também esses animais continuam de boa saúde, escrevem os cientistas - e a desenvolver-se normalmente. Diga-se já agora que, como as duas espécies de macacos-rhesus utilizados eram distantes do ponto de vista genético, os investigadores pensam que é pouco provável, dada a normalidade destes animais aos três anos, que possam existir incompatibilidades, na espécie humana, entre o ADN nuclear da mãe e qualquer ADN mitocondrial de substituição.
Mas a equipa de Mitalipov foi agora mais longe, aplicando a sua técnica, in vitro, a ovócitos humanos. Partindo de 106 ovócitos colhidos em mulheres que participavam voluntariamente no estudo, os investigadores transferiram o ADN nuclear de uma parte desses ovócitos para outros, previamente esvaziados do seu próprio núcleo (e portanto contendo apenas o seu ADN mitocondrial). A seguir, fertilizaram esses ovócitos compósitos (agora portadores do ADN nuclear materno e de novas mitocôndrias) para determinar se o processo tinha corrido bem. E de facto, conseguiram gerar, a partir dos ovócitos "trocados", embriões (que se desenvolveram até à fase de blastocisto, uma das primeiras etapas da vida embrionária) e ainda derivar linhagens de células estaminais embrionárias tão normalmente como se se tratasse de ovócitos intactos.
"Usando este processo, mostrámos que o ADN mutado das mitocôndrias pode ser substituído por cópias saudáveis nas células humanas", salienta Mitalipov. "Apesar de não termos deixado os embriões desenvolverem-se além do estádio de células estaminais, os nossos resultados mostram que esta terapia genética poderá ser uma alternativa viável para prevenir doenças devastadoras que passam da mãe para os filhos."
Os cientistas mostraram ainda que, embora a técnica não dê bons resultados se o ovócito que fornece o novo citoplasma tiver sido previamente congelado, o ovócito materno (ou seja, o que contém o ADN nuclear) pode, esse sim, ser congelado e oportunamente descongelado sem comprometer o embrião. Aliás, a pequena Chrysta é disso a prova viva. Este segundo resultado tem grande relevância para uma eventual aplicação humana, na medida em que elimina a necessidade de colher os ovócitos da doadora e da mãe ao mesmo tempo.

Fonte: Público