quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um dia o ouriço-do-mar pode tirar-lhe as rugas

Jovem investigadora portuguesa ganha Prémio Pulido Valente Ciência 2012 e outro galardão francês. Fisiologia do ouriço-do-mar pode vir a ser imitada em biomaterial para regenerar tecidos humanos.
Mário Barbosa gosta de pescar nos tempos livres. Foi na pesca que descobriu os buracos que os ouriços-do-mar fazem nas rochas, mesmo nas que são graníticas e duras. A curiosidade levou o cientista do Instituto de Engenharia Biomédica (Ineb), no Porto, a estudá-los, primeiro na literatura científica já publicada, depois no laboratório. Agora, o investigador tem em mãos um projecto para desenvolver um material regenerativo para tecidos humanos com base num tecido encontrado nestes animais marinhos.
Os ouriços-do-mar fazem parte do grupo de animais que inclui as estrelas-do-mar e os pepinos-do-mar. Na praia, o que salta à vista são os espinhos que cobrem os seus corpos e o aspecto colorido. Mas os buracos que escavam e que despertaram a curiosidade a Mário Barbosa devem-se a uma estrutura chamada "lanterna de Aristóteles" – a região central do ventre dos ouriços que tem cinco dentes capazes de ir corroendo a rocha.
Mário Barbosa e Maria Carnevali, a investigadora principal de um grupo na Universidade de Milão, em Itália, que já trabalhava com ouriços-do-mar há décadas, acabaram por se lançar numa investigação para encontrar novos biomateriais com qualidade de regeneração de tecidos humanos usando o ouriço-do-mar. “A ideia foi estudar os ligamentos que prendem [internamente] os dentes dos ouriços ao resto do corpo”, disse o cientista ao PÚBLICO.
Na altura, a investigadora Ana Ribeiro, formada em Engenharia dos Materiais pela Universidade do Minho, agarrou o projecto e candidatou-se a uma bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. “Pensei que era uma loucura”, lembra Ana Ribeiro, de 31 anos. “Como é que uma engenheira de materiais vai ser capaz de trabalhar e aprender a biologia fundamental dos tecidos dos ouriços-do-mar?”, questionou-se.
Mas não se arrependeu. Aliás, o desafio foi compensado e o doutoramento que fez valeu a Ana Ribeiro dois prémios científicos: o galardão francês Daniel Jouvenance de 2012 para jovens investigadores, de 4000 euros, entregue esta última terça-feira em Paris, e o prémio português Pulido Valente Ciência de 2012.
A investigadora descobriu que estes ligamentos no ouriço-do-mar eram compostos por fibras de colagénio muito bem estruturadas, muito parecidas com as dos mamíferos. Mas, nos ouriços-do-mar, estas fibras cumprem a função de músculos e são controladas pelo sistema nervoso. Para Mário Barbosa, esta propriedade pode ser recriada em biomateriais para regenerar tecidos humanos durante a cicatrização ou em utilizações cosmética, como suavizar as rugas.
O colagénio é uma das proteínas mais importantes do tecido conjuntivo – que é o nome generalizado para os tecidos dos ossos, ligamentos, tendões, cartilagem, tecido adiposo, entre outros. A molécula é composta por uma cadeia de aminoácidos, produzida nas células, e que se unem em feixes cada vez maiores. A unidade destes feixes é a fibrila.
Ana Ribeiro estudou uma espécie de ouriço-do-mar que existe na costa portuguesa, a Paracentrotus lividus, e utilizou a microscopia electrónica para caracterizar este ligamento, obtendo imagens ampliadas da estrutura. “O ligamento é um tecido de colagénio mutável característico dos equinodermes que podem sofrer alterações muito rápidas das suas propriedades mecânicas – rigidez, resistência à tração e viscosidade – num período curto de tempo”, explica.

Um jogo entre moléculas
Embora a estrutura molecular do colagénio no ouriço seja muito parecida com a dos mamíferos, a cientista descobriu que esta mutabilidade permite a contracção dos ligamentos do equinoderme, o que foi uma novidade: “Resulta de uma reorganização da matriz [do tecido conjuntivo]”, explica Ana Ribeiro.
O que acontece é um jogo entre várias proteínas que origina a contracção ou a distensão do colagénio. Mário Barbosa explica este jogo. No ligamento do ouriço, existe a tensilina, uma proteína que une as fibrilas de colagénio. Consoante a necessidade do ouriço-do-mar, assim o seu sistema nervoso envia estímulos para a produção de outras proteínas que quebram as ligações entre a tensilina e o colagénio, tornando as fibrilas relaxadas. Por fim, para voltar a haver contracção, uma terceira molécula inibe o funcionamento das proteínas que quebram as ligações.
“A tensilina é uma proteína natural do ouriço que o organismo humano não produz”, explica Mário Barbosa. A equipa do Ineb está agora a tentar imitar este sistema, integrando a tensilina nos biomateriais baseados no colagénio. O colagénio, já muito utilizado em cirurgia plástica, tem algumas limitações. “A maior parte dos biomateriais não se adaptam ao ambiente estruturalmente dinâmico dos tecidos e órgãos naturais”, explica Ana Ribeiro.
O objectivo é dar a este biomaterial a capacidade de mutabilidade encontrada nos ouriços-do-mar. Uma utilização imediata seria aplicar o colagénio com tensilina na pele para a tornar mais plástica e fazer desaparecer as rugas. Mas pode-se pensar em usos mais complexos, como a reconstituição da mama depois de uma mastectomia.
“Teremos um tecido com capacidade moldável”, sublinha Mário Barbosa. O cientista espera que esse tecido possa responder aos estímulos celulares e, desta forma, permitir que todos os tipos de células o invadam. No caso da mama, onde a sensibilidade proporcionada pelo sistema nervoso é muito importante, espera-se que também as células nervosas cresçam no colagénio.
A equipa já conseguiu produzir tensilina utilizando bactérias. “Já sabemos que, se tivermos colagénio e tensilina, o colagénio agrega-se. O problema fundamental é saber se in vivo o efeito é aquele que esperamos”, diz o cientista.
Ana Ribeiro já não vai testemunhar em primeira mão as próximas experiências. Está no Brasil, em São Paulo, a fazer um pós-doutoramento na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita e Filho. O tema une a engenharia e a biologia: “Estudo o comportamento das células humanas para aplicações em implantes dentários.”
Saltou para o lado de lá do Atlântico e para o lado de lá das oportunidades na ciência em Portugal. “O Brasil é um país em que existe muito financiamento para a ciência, é assustadora a diferença com Portugal”, lamenta Ana Ribeiro, que considera haver poucas saídas para os jovens cientistas portugueses no seu próprio país.
E os prémios? “É uma satisfação muito grande. O doutoramento é um período de estudos intenso, muitas vezes colocamos de parte a vida pessoal para nos dedicarmos ao trabalho. Ver esse esforço e dedicação reconhecidos é óptimo.”

Fonte: Público

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

'Curiosity' capta primeiras imagens noturnas de Marte

Pela primeira vez desde que chegou a Marte, em agosto de 2012, o robô 'Curiosity' utilizou a câmara instalada no seu braço para tirar fotos noturnas do solo marciano. O instrumento utiliza luzes brancas e ultravioletas para capturar as imagens.
O objetivo dos cientistas foi observar de perto, durante a noite, uma rocha chamada "Sayunei" utilizando o equipamento Mars Hand Lens Imager (MAHLI). A rocha já tinha sido raspada pela roda dianteira esquerda do Curiosity para que o material a ser examinado estivesse livre de poeira.
O local fica perto do sítio onde a equipa de cientistas planeia começar a usar o robô para perfurar uma rocha nas próximas semanas. As imagens da rocha Sayunei e do alvo do MAHLI foram captadas a 22 de janeiro e recebidas na Terra no dia seguinte.
"O objetivo de fazer observações sob iluminação ultravioleta foi procurar minerais fluorescentes ", disse o investigador principal do MAHLI, Ken Edgett, do Malin Space Science Systems, em San Diego.
"A equipa ainda está a avaliar as observações.Se algo parecia verde, amarelo, laranja ou vermelho sob a iluminação ultravioleta, que seria um indicador mais claro de fluorescência", disse.

Fonte: Diário de Notícias

domingo, 27 de janeiro de 2013

Supersónico SpaceLiner pronto em 2050

Supersónico SpaceLiner, que ficará pronto em 2050, poderá fazer uma viagem entre Londres e Sydney em apenas 90 minutos. Isto porque conseguirá alcançar uma velocidade 24 vezes superior à do som. Será lançado com ajuda de oxigénio líquido e propulsionado a hidrogénio.
Garantem os engenheiros que o supersónico SpaceLiner será capaz de atingir 24 vezes a velocidade do som e transportar passageiros entre Londres e Sydney em 90 minutos. Chegará em 2050.
Embora até conclusão do aparelho supersónico os responsáveis pelo projeto ainda tenham um longo caminho a percorrer, Martin Sippel, o coordenador do SpaceLiner no Centro Aeroespacial Alemão, acredita que o projeto pode atrair investimento privado dentro de uma década.
O projeto atual inclui uma base de lançamento para o foguete e um avião orbital separado com capacidade para transportar até 50 passageiros à volta do mundo sem nunca se elevar para o espaço.
Uma viagem entre a Europa e os Estados Unidos teria uma duração de pouco mais de 60 minutos, proporcionando aos passageiros dispostos a pagar preços de viagens espaciais - centenas de milhares de dólares por bilhete - ultra rapidez.
Se "decolar, literalmente, não há razão para que uma esquadra de SpaceLiners não possa fazer até 15 voos por dia", acredita Sippel.
O SpaceLiner demoraria oito minutos para subir a uma altitude de 50 milhas, onde atingiria a atmosfera superior da Terra antes de deslizar de volta à Terra a uma velocidade supersónica.

Fonte: Diário de Notícias

sábado, 26 de janeiro de 2013

Japoneses dizem que passar fome melhora a memória

Passar fome melhora o resultado da memória, segundo um estudo realizado com moscas da fruta encetado por cientistas japoneses e peritos do Instituto Metropolitano de Ciências Médicas de Tóquio.
Os testes, realizados com dois grupos de moscas, um sem ser alimentado e outro com alimento, demonstrou que a fome desperta uma hormona que reduz o açúcar no organismo e ativa uma proteína no cérebro capaz de melhorar a memória, revela uma notícia da cadeia NHK.
Os resultados, que segundo a equipa podem ser extrapolados para os seres humanos já que contam com a mesma proteína no cérebro também revelaram que nos casos em que as moscas passaram até 20 horas sem comer, o resultado é inverso e resulta numa redução da memória.
O estudo da equipa de cientistas japoneses será publicado na edição de hoje da revista norte-americana Science, acrescentou ainda a NHK.

Fonte: Diário de Notícias

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O raio do protão é mais pequeno do que se pensava, mas o enigma perdura

Equipa internacional com importante participação portuguesa confirma a sua surpreendente descoberta, anunciada há dois anos, e que poderá pôr em causa um dos pilares teóricos da Física.
A descoberta, em 2010, apanhou de surpresa não apenas os seus autores, mas os físicos do mundo inteiro. Medições do tamanho do protão indicavam que o raio deste constituinte de base dos átomos seria muito inferior ao que se pensava. O resultado, obtido por 32 cientistas – do Instituto Max Planck, na Alemanha; do Instituto Paul Scherrer e do ETH de Zurique, na Suíça; do Laboratório Kastler Brossel, em Paris; dos EUA; de Taiwan; e das universidades de Coimbra e de Aveiro (na altura, um grupo de oito investigadores) – fora então publicado na revista Nature. E, agora, a mesma equipa internacional, hoje com 35 elementos – sete dos quais de Coimbra e dois de Aveiro – anuncia, na edição desta sexta-feira da revista Science, a confirmação dessas medições.
Desde aquela publicação inicial que existe um intenso debate em torno de algo que todos vêem como um enigma com potenciais implicações problemáticas para um dos pilares teóricos da Física: a Electrodinâmica Quântica, ou QED, que descreve as interacções entre a luz e a matéria. Os novos resultados não resolvem o enigma, antes confirmam a sua existência, ao mostrar que os primeiros resultados não eram disparatados.
Acontece que é com base na Electrodinâmica Quântica que foi calculado o valor “oficial” do raio do protão: 0,8768 fentómetros (milésimos de bilionésimo de metro). E que o que o que os cientistas procuravam, na altura dos seus primeiros resultados, não era apanhar uma surpresa e criar um mistério, mas apenas acrescentar uma casa decimal a esse valor em vigor, recorrendo a medições experimentais. Só que, em vez disso, viram de repente o raio do protão “encolher” cerca de 4%, para 0,84184 fentómetros.
Ora, a Electrodinâmica Quântica é “a teoria mais exacta e mais bem estudada da Física”, disse quinta-feira ao PÚBLICO Joaquim dos Santos, da Universidade de Coimbra, coordenador do grupo português. Como explicar então que essa teoria não bata certo com a realidade?
Todas estas medições foram realizadas utilizando átomos de hidrogénio – que não são senão um protão com um electrão à volta. Não de hidrogénio natural, mas de uma forma “exótica” do mesmo elemento químico, onde o electrão é substituído por um muão, partícula de igual carga mas 200 vezes mais pesada do que o electrão, que torna as medições mais precisas. “O Instituto Paul Scherrer é uma fábrica de muões”, salienta Joaquim dos Santos. “A nossa equipa é a única no mundo a fazer estas medições com hidrogénio muónico.”
O dispositivo experimental desenvolvido pela equipa é uma “floresta” de lasers ultra-rápidos e de detectores (estes últimos desenvolvidos pelos cientistas portugueses) que permitem medir as diferenças de energia dos muões conforme a distância das suas órbitas (ou “orbitais”) ao protão central, para daí deduzir o tamanho do protão. “Fizemos novas medições para outras orbitais do hidrogénio muónico que confirmam as [nossas primeiras medições] do raio do protão”, diz Joaquim dos Santos. Ou seja, “confirmam que o enigma se mantém”, porque “já não há dúvida na comunidade científica” de que se trata efectivamente de um enigma e não de um erro. O valor do raio do protão hoje publicado na Science é ligeiramente mais preciso do que o anterior: 0,84087 fentómetros.

Teoria incompleta?
E agora? “Algumas medições feitas com hidrogénio natural fornecem um valor próximo do nosso, mas não são ainda consideradas estatisticamente significativas”, diz Joaquim dos Santos. Portanto, vai ser preciso fazer as mesmas medições, com o mesmo dispositivo experimental, mas com hidrogénio natural. Estas experiências já estão em curso ou iminentes em vários laboratórios do mundo, em França, Alemanha, EUA. “Pode ser que esses valores se revelem mais baixos e então não haverá problema com a teoria”, diz o cientista. O enigma resolver-se-á sozinho. Resultados dentro de dois anos.
Porém, outra razão para esta discrepância entre a teoria e a observação poderia ser “a existência de uma partícula desconhecida, responsável por uma interacção entre o muão e o protão” que mascara as coisas. Há pessoas a estudar essa hipótese, mas muitos pensam que se essa partícula existisse, já teria sido encontrada.
A terceira explicação seria que a Electrodinâmica Quântica está incompleta, “que há uma propriedade característica do protão que a teoria ainda não descreve, um fenómeno novo que ela não previa”, frisa Joaquim dos Santos, admitindo que tem uma predilecção por esta hipótese: “Talvez possa ser da teoria, mas é um palpite como outro.”
Seja como for, a equipa já está a analisar os dados obtidos repetindo as medições com deutério muónico (o deutério é uma forma de hidrogénio cujo núcleo inclui um neutrão), esperando ter resultados daqui a um ano.
O alvo que se segue será o hélio muónico (dois protões e dois muões, para além de neutrões), mas esse trabalho irá precisar de um novo dispositivo experimental, com lasers e detectores diferentes.

Fonte: Público