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sábado, 19 de janeiro de 2013

Mais um passo em direção ao teletransporte

Investigadores resolveram as bases matemáticas necessárias para tornar possível o envio de informação quântica, à velocidade da luz, mais eficiente.
Físicos do Reino Unido dizem ter mostrado que o teletransporte vai ser, finalmente, possível. Os investigadores, da Universidade de Cambridge, afirmam ter feito avanços, mais teóricos, que podem abrir caminho para algo que mais parece ficção científica.
A humanidade está muito longe de construir uma máquina que nos leve de um lado para o outro do mundo, à velocidade da luz como em Star Trek. No entanto os cientistas, que publicaram o seu trabalho na revista Physical Review, demonstram, através de cálculos matemáticos, que é possível realizar tal façanha no mundo quântico.
O universo estranho, que governa o comportamento de moléculas e átomos, permite que as coisas aconteçam de uma forma tão mágica como estar em dois lugares ao mesmo tempo. Os resultados, obtidos pelos cientistas britânicos, servirão principalmente para desenvolver a tão esperada computação quântica, bem como para enviar informação a uma velocidade, hoje, impossível. O limite só o futuro poderá ditar
Sergii Strelchuk, do departamento de Matemáticas Aplicadas e Física Teórica de Cambridge, afirma: "Há uma estreita relação entre o teletransporte e os ordenadores quânticos, que são dispositivos que aproveitam a mecânica quântica para realizar cálculos que não seriam possíveis num computador clássico."
Enquanto o protocolo dos físicos de Cambridge é completamente teórico, no ano passado, uma equipa de cientistas chineses relataram que tinham conseguido teletransportar a 143 quilómetros de distância. Deste modo quebram- se todos os recordes anteriores. O teletransporte de informação, por átomos individuais, é possível de ser concebido com as tecnologias atuais. Apesar disso, teletransportar objetos, como fazia o Capitão Kirk, permanece no reino da ficção científica.

Fonte: Diário de Notícias

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Quantas gaivotas são precisas para levar um pêssego gigante até à América?

Um livro de um famoso escritor de histórias para crianças, um filme da Walt Disney e algumas fórmulas da Física clássica deram origem… a um artigo científico.
Até aqui, pensava-se que a força de umas centenas de gaivotas era suficiente para fazer levantar voo a um pêssego do tamanho de uma casa e conseguir assim levá-lo, pelos ares, para o outro lado do Atlântico. Mas, agora, uma equipa britânica mostrou que essa computação inicial, que remonta a 1961, pode ter sido totalmente irrealista. Os seus resultados, que foram publicados no Journal of Physics Special Topics, talvez venham a dar origem, num futuro mais ou menos próximo, à elaboração de algumas erratas editoriais.
Alto aí! Parem as rotativas! Estamos a falar de gaivotas, de pêssegos gigantes, de uma travessia aérea do Atlântico em condições demenciais! Mas isto mais parece uma história saída de um livro de Roald Dahl, o maravilhoso escritor britânico de histórias para crianças, do que o tema de um estudo científico…
Calma. Na realidade, trata-se das duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, é efectivamente um episódio da história contada por Dahl no seu livro James e o Pêssego Gigante (disponível em Portugal pela Civilização Editora) – uma narrativa mirabolante que mistura fruta, um menino que perdeu os pais e um grupo de insectos de quem se torna amigo e com quem vive momentos mágicos. Mas, por outro lado, também é verdade que esse episódio foi agora alvo de cálculos físico-matemáticos rigorosos, realizados por Emily Watson e seus colegas da Universidade de Leicester (Reino Unido). E que o trabalho lhes valeu uma publicação oficial.
Os quatro autores do artigo em causa (disponível para download em https://physics.le.ac.uk/journals/index.php/pst/article/view/519/340) são todos estudantes de mestrado de Merwyn Roy, do Departamento de Física e Astronomia daquela universidade. E a revista, que é editada pela instituição, funciona “exactamente como uma publicação profissional”, incluindo a chamada peer-review, eventualmente seguida da correcção dos textos submetidos, explica Roy em comunicado. “Os estudantes têm assim a oportunidade de desenvolver todas as competências de que irão precisar quando, mais tarde, tiverem de lidar com revistas de alto nível.”
No artigo, os autores dividiram a viagem transatlântica do pêssego em duas etapas, como no livro – e como também, aliás, no filme homónimo de 1996, produzido pela Walt Disney. Uma primeira etapa aquática e uma segunda etapa aérea.
“Graças a uma análise dos processos de dinâmica dos fluidos envolvidos”, escrevem no seu artigo, os cientistas começaram por confirmar que, desde que o pêssego gigante fosse suficientemente oco (no livro, é dito que o é parcialmente), ele seria efectivamente capaz de ficar à tona da água e de não se afundar. Mais precisamente, considerando que a fruta descomunal tinha um diâmetro de 12 metros (“o tamanho de uma pequena casa”) e que, “como se depreende [do filme], a parte que ficava fora da água tinha uma altura de 5,7 metros”, as fórmulas da hidrodinâmica permitiram-lhes concluir que, para conseguir flutuar, o pêssego precisava de ser composto por uma camada de polpa de 1,24 metros de espessura e um enorme buraco central. Suficiente, portanto, para merecer a designação de peça de fruta. “James teria conseguido navegar no pêssego da forma descrita por Roald Dahl”, escrevem.   
Pelo contrário, quando modelizaram a aerodinâmica das gaivotas e estimaram o número dessas aves necessário para levantar o pêssego e arrastá-lo, ao longo de milhares de quilómetros, atrelado à “cordas” excretadas por um bicho-da-seda gigante, perceberam que aí as contas não batiam nada certo. O número de 501 gaivotas avançado por Dahl estava completamente errado. “Não seria possível fazer voar um pêssego com as dimensões calculadas (…) com um número tão diminuto de aves”, concluem. James “teria precisado de atrelar 2.425.907 gaivotas para voar até a América”.
O que deixa em aberto, talvez para futuras investigações, questões como a de saber se o bicho-da-seda e a aranha da história teriam sido capazes de fornecer a quantidade de cordame exigida e dotado da resistência suficiente para não se partir a meio do caminho…

Fonte: Público

terça-feira, 14 de agosto de 2012

E se um líder terrorista fosse preso com a ajuda de um algoritmo?

Um falso rumor na Internet tem uma fonte primordial, assim como uma epidemia tem início num surto localizado ou uma rede de terroristas tem um líder que comanda actos como o ataque de 11 de Setembro de 2001. O que costuma ser difícil, mas determinante para combater estas situações, é encontrar a origem destes fenómenos que acontecem através de redes de comunicação. Mas um algoritmo desenvolvido por um português, com outros colegas, pode ajudar a determinar a origem de fenómenos deste tipo, com poucos pontos de monitorização destas redes. O estudo foi agora publicado na revista Physical Review Letters.
Osama bin Laden, o líder da Al-Qaeda morto em 2011, foi o responsável último pelos ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono e pela tentativa falhada à Casa Branca, a 11 de Setembro de 2001. Mas foi Mohamed Atta, o piloto do avião que embateu contra a torre Norte, que organizou o esquema terrorista. Poucos dias depois dos ataques, os Estados Unidos conseguiram unir as ligações da rede terrorista e Atta foi identificado como o responsável pelo esquema.
Pedro Pinto, cientista português a trabalhar na Escola Politécnica Federal de Lausana, Suíça, chegou quase à mesma conclusão, quando utilizou um modelo algorítmico que desenvolveu com Patrick Thiran e Martin Vetterli, ambos da mesma instituição. "Para o modelo funcionar, é preciso perceber a rede", disse Pedro Pinto.
Um exemplo muito actual é o Facebook, uma rede social onde as pessoas têm amigos, que por sua vez têm mais amigos, alguns comuns, outros não, e assim sucessivamente. Cada pessoa é um nó nesta rede e quando um rumor é lançado por alguém propaga-se. A altura em que esse rumor chega a um dado utilizador depende do número de nós que há entre essa pessoa e a fonte do rumor, e o tempo que a informação demora a ser transmitida de nó em nó.
Segundo Pedro Pinto, que fez Engenharia Informática na Universidade do Porto antes do doutoramento no Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, e de ir para a Suíça, o estudo dos vírus informáticos ajudou muito a prever como se propaga a informação na Internet. Mas o inverso, detectar a origem dos vírus quando eles já estão espalhados, não era nada fácil.
Para resolver esse problema, a equipa partiu de uma investigação sobre um surto de cólera na África do Sul. "Tínhamos os dados, formulámos o modelo de como o vírus se propagou [nas redes de água, de transportes e nos rios] e desenvolvemos os métodos para determinar a origem [do surto]", explicou o cientista. Depois, a equipa testou o algoritmo noutro tipo de redes.
Um desafio complicado é o das redes terroristas: estão escondidas, a informação passa de várias formas entre os seus membros e com frequência muito variável. O grupo responsável pelos ataques do 11 de Setembro foi alvo de testes deste algoritmo, chamado SparseInf. Para tornar o teste realista, a equipa partiu do princípio de que só conseguia espiar a informação que passava por dois elementos da rede.
Os cientistas utilizaram a informação que foi publicada nos jornais sobre as ligações entre os 62 elementos conhecidos da rede. Fizeram vários testes à procura do seu líder, em que um dos membros espiado era sempre o mesmo e o outro variava. Num dos pares, o algoritmo conseguiu reduzir os potenciais cabecilhas dos ataques do 11 de Setembro a três terroristas - e um deles era Mohamed Atta.
Apesar dos aperfeiçoamentos que ainda são necessários, o algoritmo mostra que "um pequeno número de observadores pode ser uma alternativa eficiente à monitorização de cada um dos nós numa rede", conclui o artigo. E pode ser pensado para situações tão diversas como a monitorização de uma substância tóxica introduzida numa estação de metro ou o alastrar de uma pandemia global de aeroporto em aeroporto. "Quase todos os sistemas podem ser modelados por redes", diz Pedro Pinto, que vai disponibilizar o programa no seu site para "quem quiser brincar com ele".
Agora, o cientista está interessado em estudar os nós mais influentes na Internet, como blogues, que podem, por exemplo, permitir às agências publicitárias escolher um público-alvo para um produto.

Fonte: Público

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Análise em rede prevê efeitos laterais dos medicamentos

Numa nova abordagem matemática, os cientistas previram efeitos secundários de medicamentos que normalmente não são descobertos até que milhares de pessoas tomem esse medicamento. A técnica é especialmente boa a prever os efeitos laterais que aparecem depois de dias ou meses de toma de um medicamento, sugerindo que uma abordagem semelhante poderia ajudar a tornar os fármacos mais seguros antes mesmo de chegarem ao mercado e poderia até mesmo salvar vidas.
Os investigadores começaram com um catálogo de 2005 dos medicamentos existentes e dos seus efeitos secundários conhecidos, tais como ataques cardíacos ou problemas de sono. Após relacionarem as drogas e os seus efeitos laterais numa rede, instruíram um computador para prever novas ligações prováveis entre drogas e efeitos colaterais. O programa foi capaz de prever 42% dos efeitos secundários de drogas que foram mais tarde encontrados em pacientes, relatam os pesquisadores na revista Science Translational Medicine.
"Os efeitos adversos dos medicamentos são muito importantes e pouco estudados", diz Russ Altman, especialista em informática biomédica na Universidade de Stanford que não esteve envolvido com o trabalho. Antes de um medicamento começar a ser comercializado é submetido a testes toxicológicos e ensaios clínicos para provar que é eficaz mas não é perigoso. Estes ensaios são frequentemente extensos o suficiente para provar que a droga funciona, mas não são grandes o suficiente para dizer algo significativo sobre os efeitos laterais, diz Altman. Assim, muitos efeitos laterais só são descobertos depois de a droga estar no mercado.
"Você rotineiramente encontrar um monte de chato e os de vez em quando há um showstopper", diz Altman. Tais interações levar a lesões e 770.000 mortes a cada ano.
Para levantar alguma da névoa em torno dos efeitos laterais, os cientistas da Harvard Medical School e do Hospital Infantil de Boston criaram uma rede que liga 809852 medicamentos a efeitos laterais que foram conhecidos a partir de 2005. A equipa também adicionou informações à sua rede acerca das propriedades químicas, tais como o ponto de fusão e peso molecular da droga, e onde a droga exerce os efeitos no organismo. Usando apenas esses dados e as relações estabelecidas, o computador previu efeitos laterais que foram relatados nos últimos anos, tal como a droga Zonisamida causar pensamentos suicidas em algumas pessoas, e associou o antibiótico norfloxacina ao rompimento de tendões. Ele também ligou a controversa droga Avandia (rosiglitazona) a ataques cardíacos, uma ligação que é suportada por algumas pesquisas.
A equipa tentou obter informações adicionais sobre as drogas, tais como dados que descrevem a estrutura molecular. Mas o diagrama de rede das relações conhecidas entre as drogas e os efeitos laterais sozinho tinha mais poder preditivo e menos falsos positivos do que os métodos que consideraram a informação adicional.
"Fomos agradavelmente surpreendidos", diz o membro da equipa Ben Reis, que dirige o grupo de medicina preditiva do Hospital Infantil de Boston. "A rede codifica um monte de informações de outros mundos. Talvez por isso ela o fez tão bem. "
Havia alguns efeitos laterais para os quais o modelo foi menos bem sucedido, tais como problemas de pele, destaca o matemático Aurel Cami, da Harvard Medical School e do Hospital Infantil de Boston.
Esta primeira rodada estabeleceu que a matemática de rede, normalmente usada para avaliar as relações sociais, ou como uma doença se espalha, pode descobrir reações importantes. Agora Reis e Cami estão a investigar que tipo de dados funciona melhor e estão a tentar lidar com as interações medicamentosas que também podem ser perigoso e raramente são estudadas em ensaios clínicos.
"Estamos a passar de um paradigma de deteção - que leva pessoas doentes a saber que algo está errado – para a previsão", diz Reis.

Fonte: Science News

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ferramenta matemática fundamental vê primeiro avanço em 24 anos

Uma das ferramentas mais fundamentais da matemática fora da aritmética diária viu a sua primeira melhoria em 24 anos.
Embora o novo método de multiplicação de matrizes, uma ferramenta essencial para a resolução de problemas em física, economia e na maior parte das áreas da ciência, não seja prático para o uso nos computadores atuais, é um salto teórico surpreendente que poderá um dia ter múltiplas aplicações. E está a criar uma agitação significativa na blogosfera matemática.
"Tudo isto é extremamente excitante, e é um dos melhores resultados obtidos na teoria nos últimos anos", escreveu Richard Lipton, um cientista de computação no Instituto de Tecnologia da Geórgia, em Atlanta, no seu blog.
"Na verdade, eu sabia há um mês que isto ia acontecer – foi muito difícil manter o segredo", escreveu Scott Aaronson, outro cientista de computação e bloguer, do Massachusetts Institute of Technology.

Reduzindo o valor de ómega
A matriz é um conjunto de números, e a multiplicação de matrizes é uma maneira de combinar duas matrizes para produzir uma terceira. A maneira mais simples de se multiplicar duas matrizes n × n - aquelas com n linhas e n colunas - requer mais ou menos n^3 passos, mas em 1969, Volker Strassen descobriu um algoritmo que fez isso em n^2.807 passos.
A multiplicação de matrizes é geralmente realizada utilizando o método simples n^3 ou usando o algoritmo de Strassen, que é mais complexo mas também mais eficiente para grandes matrizes, mas os teóricos têm tentado muitas outras maneiras de reduzir o número de passos, através da redução do valor do expoente, conhecida como ómega.
Em 1987, esta busca culminou com o mais rápido algoritmo conhecido há 24 anos. Foi desenvolvido por Don Coppersmith e Winograd Shmuel e colocou o valor de ómega em 2,376.

Solução enterrada
Agora, Virginia Vassilevska-Williams, que divide o seu tempo entre a Universidade da Califórnia, em Berkeley, e a Universidade de Stanford, mostrou que este pressuposto estava errado - ajustando o algoritmo para produzir um ómega de 2,373.
A ideia por trás da melhoria estava presente no método original de Coppersmith Winograd, que envolve essencialmente a aplicação de um algoritmo de partida duas vezes seguidas. O problema era que a aplicação do algoritmo de uma terceira vez aparentemente não produziu melhorias. "Isso levou a acreditar que níveis mais elevados de recursão não produziriam melhorias", diz Vassilevska-Williams, por isso eles desistiram. Cada aplicação do algoritmo envolveu a resolução de um número crescente de equações difíceis, e sem retorno no final não parecia valer a pena o trabalho duro.
Então, em 2010, Andrew Stothers da Universidade de Edinburgh, Reino Unido, aplicou o algoritmo quatro vezes como parte de sua tese de doutoramento, mas o resultado ficou “enterrado na tese”, o que fez com que passasse despercebido pela maioria comunidade matemática. Ele então deixou a sua pesquisa para trabalhar na indústria de serviços financeiros. "Não foi intencional o facto de eu não a ter divulgado", diz ele.

Caixa de ferramentas matemáticas
Quando Vassilevska-Williams, que estava a trabalhar de forma independente, deparou com a tese de Stothers, percebeu que poderia usar parte do seu trabalho. Ela aplicou o algoritmo de partida oito vezes para descobrir o valor ómega final de 2,373.
Vale a pena ficar animado sobre uma melhoria tão pequena? "Sim, porque tem resistido por tanto tempo e muitas pessoas já trabalharam nele", diz William Gasarch, um cientista de computação da Universidade de Maryland em College Park. "Muitas vezes os teóricos trabalham em problemas que as pessoas realmente não se preocupam. Este não é o caso aqui."
Embora os computadores de hoje não possam tirar proveito deste avanço específico, Vassilevska-Williams também criou uma estrutura matemática que poderia permitir mais avanços teóricos que podem ser úteis para a computação. "Você pode pensar nisso como uma nova ferramenta para ser adicionada à caixa de ferramentas", diz ela.

Fonte: New Scientist

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Será este o verdadeiro espelho mágico?

A descoberta, publicada revista Science, levou a uma reformulação das leis matemáticas que predizem o caminho de um raio de luz refletidos uma superfície ou que viajam de um meio para outro - por exemplo, do ar para o vidro. "Usando superfícies de designer, nós criamos os efeitos de um espelho de parque de diversões numa superfície plana", diz o co-investigador principal Federico Capasso, Professor de Física Aplicada na SEAS . "A nossa descoberta leva a óptica para um novo território e abre a porta para desenvolvimentos emocionantes na tecnologia fotónica."
Tem sido reconhecido desde os tempos antigos que a luz viaja em velocidades diferentes através de diferentes meios. A reflexão e a refração ocorrem sempre que a luz encontra um material num determinado ângulo, porque um lado do feixe é capaz de viajar à frente do outro. Como resultado, a frente de onda muda de direção. As leis convencionais, ensinados nas aulas de física no mundo todo, prevêem os ângulos de reflexão e refração baseados apenas sobre o ângulo incidente (de entrada) e as propriedades dos dois meios.
Enquanto estudava o comportamento da luz sobre superfícies modeladas com nanoestruturas metálicas, os pesquisadores perceberam que as equações atuais eram insuficientes para descrever os fenómenos bizarros observado no laboratório. As novas leis generalizadas, derivados e demonstradas experimentalmente em Harvard, têm em conta a descoberta do grupo de Capasso. em que a fronteira entre dois meios, com padrões especiais, pode-se comportar como um terceiro meio.
"Normalmente, uma superfície como a superfície de um lago é simplesmente uma fronteira geométrica entre dois meios, ar e água", explica o autor Nanfang Yu. "Mas agora, neste caso especial, a fronteira torna-se uma interface ativa que pode curvar a luz por si só."
O componente chave é um conjunto de antenas minúsculas feitas de ouro que existem na superfície do silício usado no laboratório de Capasso. A matriz é estruturada numa escala muito mais pequena do que o comprimento de onda da luz a bater. Isto significa que, ao contrário de um sistema óptico convencional, o limite de engenharia entre o ar e o silício transmite uma abrupta mudança de fase (apelidado de "descontinuidade de fase") para as cristas da onda de luz que o atravessam.
Cada antena na matriz é um ressonador minúsculo que pode aprisionar a luz, segurando a sua energia por um determinado período de tempo antes de a libertar. Um gradiente de diferentes tipos de ressonadores em nanoescala em toda a superfície do silício pode efetivamente dobrar a luz antes que ele se comece a propagar através do novo meio. O fenómeno resultante quebra as regras antigas, criando feixes de luz que refletem e refratam de forma arbitrária, dependendo do padrão de superfície.
De forma a generalizar as leis de reflexão e de refração, presentes nos livros de texto, os pesquisadores de Harvard adicionaran um novo termo para as equações, representando o gradiente de mudança de fase transmitida na fronteira. Na ausência de um gradiente de superfície, as novas leis reduzem-se às já bem conhecidas.
"Ao incorporar um gradiente de descontinuidades de fase através da interface, as leis da reflexão e da refração tornam-se leis de designer, e uma panóplia de novos fenómenos aparecem", diz Zeno Gaburro, investigador visitante no grupo Capasso e co-investigador principal deste trabalho . "O feixe refletido pode saltar para trás em vez de para a frente. Pode-se criar um índice de refração negativo. Existe um novo ângulo de reflexão interna total." Além disso, a frequência (cor), amplitude (brilho), e polarização da luz também podem ser controlados, o que significa que a saída é, em essência, um feixe de designer.
Os pesquisadores já conseguiram produzir um feixe de vórtice (corrente de luz em forma helicoidal, tipo saca-rolhas) a partir de uma superfície plana. Eles também prevêem que lentes planas poderiam focar uma imagem sem alterações na imagem.

Fonte: Science Daily

terça-feira, 19 de julho de 2011

Explicada a variabilidade na eficácia dos cocktails anti-HIV

Um novo modelo matemático para as drogas contra o HIV revelou a biologia por detrás da variabilidade do sucesso de tais tratamentos. A infecção com o HIV era uma sentença de morte até à introdução de cocktails multidrogas, mas a eficácia diferencial das combinações sempre foi um enigma. A pesquisa, publicada na revista Science Translational Medicine, poderá ajudar a refinar as terapias para o HIV e outros vírus, como o da hepatite C.
Aumentar ligeiramente a dose de alguns medicamentos contra o HIV pode ter um efeito profundo, se essas drogas estiverem a atacar vários alvos. “A constatação de que mais balas podem matar mais alvos pode parecer óbvio”, diz o investigador Robert Siliciano da Johns Hopkins University. Mas essa constatação necessita de uma mudança no pensamento sobre uma ideia muito antiga: a relação entre a dose de uma droga e seu efeito.
Durante séculos, a eficácia de uma droga foi vista com base naquilo a que se chama de curva dose-resposta. Esta relação, muitas vezes assume uma forma sigmóide quando representada graficamente. Mas em 2008, a equipa do Dr. Siliciano observou que a inclinação do "S" varia de acordo com as diferentes classes de drogas contra o HIV. Um declive gradual significa que o aumento da concentração da droga gradualmente melhorou a resposta. Mas uma ladeira muito íngreme significa que pequenos aumentos na concentração de uma droga poderiam acabar com muito mais moléculas-alvo. "As diferenças encontradas são – de várias ordens de grandeza", afirmou ele.
“Por exemplo, o aumento da dose dos inibidores de protease mais eficazes, drogas que bloqueiam uma proteína do HIV que cliva as diferentes peças para a montagem do vírus, pode torná-los biliões de vezes mais poderosos contra o vírus”. Mas o aumento da quantidade do medicamento AZT, que ataca a maquinaria do vírus que traduz o material genético, pode produzir um efeito apenas 10 vezes maior do que a menor dose.
Aumentos incrementais na dose que produzem uma grande melhoria na sua resposta é um fenómeno que normalmente acontece com as drogas que atacam uma molécula-alvo em vários locais, um efeito conhecido como ligação cooperativa. No entanto, o HIV tem apenas um local que as drogas podem bloquear, por isso mais do que uma droga não tem que ser necessariamente mais eficaz. No entanto, os pesquisadores perceberam que em determinados momentos do ciclo de vida do HIV, existem tantos vírus ou maquinarias virais para atacar que as drogas apresentam cooperatividade, não para muitos locais numa molécula mas sim para muitos alvos.
"Não era óbvio", diz Siliciano. "Olhando para a concentração da droga que provoca 50 por cento de inibição é um pensamento muito linear. Mas o vírus replica-se de forma exponencial. Cada célula infectada liberta vírus suficientes para infectar mais 10 células. Então nós tivemos que adaptar o nosso pensamento a essa realidade ".
O novo modelo tem também em conta que alguns fármacos entram na “batalha” durante partes do ciclo de vida do HIV apenas quando a infecção é interrompida se um número crítico de alvos forem mortos. A equipa testou o modelo através da criação de vírus possuíam um número de locais de ligação diferente do que é habitual, tais como os vírus que não controlam o seu número habitual de proteases. Quando a equipa infectou células renais com estes vírus alterados e foram calculadas as curvas de dose-resposta, os declives obtidos eram diferentes daqueles obtidos para o HIV normal. Quando o vírus alterado apresentava menos enzimas-alvo para a droga, o vírus era inibido com uma dose mais baixa.
Os conceitos descritos no novo modelo não só fornecem explicações sobre o combate ao HIV, mas também podem ser aplicados a outros vírus, como hepatite C, afirma o pesquisador e médico Steven Deeks da Universidade da Califórnia, em San Francisco, que é co-autor de um comentário sobre o novo trabalho. "O HIV é uma máquina de replicação", diz Deeks. "Ele muda constantemente e o sistema imunitário é ineficaz em controlá-lo. Dada a eficácia que o vírus apresenta, nunca se entendei porque é que estas combinações de drogas têm sido utilizadas há tanto tempo". "A matemática por detrás disto é tão densa", afirmou. "Finalmente consegui entendê-la.”

Fonte: Science News