terça-feira, 22 de novembro de 2011

A herança da vida longa: os genes não estão sós no processo

Embora a vida longa possa ser herdada, não acontece necessariamente através dos genes.
Um novo estudo mostra que os netos e bisnetos de lombrigas de vida longa vivem mais 5-6 dias do que o habitual, apesar de já não possuírem as mutações genéticas que causaram a longevidade dos seus avós. Em vez disso, a longevidade dos descendentes pode ser devida ao facto de eles terem herdado marcas epigenéticas - tags químicas no seu DNA ou nas proteínas associadas ao DNA chamadas histonas - que modulam a atividade do gene sem mudar o próprio gene, de acordo com pesquisadores da Universidade de Stanford e Harvard, que publicaram os resultados na revista Nature.
O estudo é o primeiro a demonstrar que a longevidade pode ser passada de geração em geração através destas tags conhecidas como modificações das histonas e não por variações no DNA. Poucos estudos têm sugerido que qualquer modificação das histonas pode ser herdado ", mas esta é uma demonstração bastante definitiva", diz Tony Kouzarides, um biólogo molecular da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Trabalhando com a lombriga Caenorhabditis elegans, os pesquisadores liderados por Eric Greer e Anne Brunet em Stanford encontraram anteriormente espécimes que viviam 20 a 30 por cento mais do que o normal. Esses vermes de vida longa tinham mutações que interromperam a sua capacidade de fazer uma marca epigenética em particular, numa proteína chamada histona H3. As histonas são proteínas nas quais o DNA se enrola para que caiba numa célula, e ajudam à atividade de controlo dos genes.
Greer e Brunet descobriu que esses vermes têm problemas na adição de três grupos metil a um lisina específica na cadeia de aminoácidos que compõem a H3. Esta marca é quase sempre encontrada em histonas localizadas perto do início de genes ativos. Vermes que não pode efectuar essa marca podem ter genes menos ativos ou podem desligar alguns genes inteiramente.
Mas o verdadeiro teste para se saber se uma marca particular de DNA ou de histonas é epigenética é se o efeito pode ou não ser herdado. Então Greer desenhou uma nova experiência para descobrir se as lombrigas que não apresentam mutações nos genes de marcação das histonas poderiam herdar vidas longas.
"Eu realmente não esperava que fosse hereditária", porque normalmente as marcas nas histona são apagadas entre as gerações, diz Greer, que agora está a trabalhar em Harvard.
Mas vidas mais longas foram herdadas por pelo menos três gerações, embora os descendentes dos vermes mutantes não carregassem mais a mutação do DNA que originalmente causou a extensão do tempo de vida, descobriram os pesquisadores. As marcas nas histonas na prole de longa vida parecia normal, mas a atividade de certos genes nos descendentes é equivalente à verificada no ancestral mutante.
O prolongamento da vida terminou abruptamente entre as terceira e quarta geração, segundo o estudo. O motivo é desconhecido, mas especula Brunet que cada geração pode gradualmente restabelecer algumas das marcas até que um limite é atingido e a extensão da vida é eliminada.
Ninguém sabe se a descoberta efetuada em C. elegans será aplicável noutros animais ou pessoas, mas muitos processos de envelhecimento encontradas em lombrigas também existem em outros organismos, incluindo seres humanos.
"Pensa-se sempre que é a genética – mutações reais no genoma – que permite às pessoas viver mais tempo, mas certamente podem haver fatores epigenéticos envolvidos no processo", diz Brian Kennedy, diretor executivo do Instituto Buck de Pesquisa sobre o Envelhecimento em Navato, na Califórnia
A equipa ainda não descobriu exatamente como a vida longa é passada de geração em geração. "É muito misterioso, e é sempre ótimo ter um novo mistério", diz Cynthia Kenyon, uma geneticista molecular da Universidade da Califórnia, em San Francisco.

Fonte: Science News

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